Mestre Tristão da Cunha em Iwama

2005

 

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Realmente é absolutamente necessário voltar a Iwama todos os anos.  Não há lugar melhor para aprender a técnica do Fundador e a história do Aikido. O que vem escrito nos livros sobre o Aikido normalmente tem a haver com os anos do Fundador antes de Iwama. Durante o período real do nascimento do Aikido não há nada escrito.

Este período coincide com a chegada do Grande Mestre Saito ao dojo de Iwama. Como Budoka, o Fundador nunca deixou de estudar e melhorar a sua arte, tal como o seu mais fiel aluno, o nosso grande mestre.

Sobre este período, a maior parte dos livros não diz nada. Alguns dizem somente que Ueshiba passou muito tempo em Iwama, retirado, dedicando-se à oração, meditação e treino austero. Isto é verdade.  Mas o que acontecia dentro do dojo? E em Iwama? Como viam o Fundador as populações locais? Qual era a relação do Fundador com a organização Aikikai? E com o seu filho? E com os seus alunos directos?  Porquê muitos dos seus últimos alunos preferiram seguir Saito Sensei depois da sua morte? Qual era a relação directa do nosso mestre com a família Ueshiba? E com a Aikikai?

O nascimento do Aikido não acabou com o registo do nome Aikido. Isso é o que a organização Aikikai quis fazer querer a todos os praticantes de forma a que seguissem o novo estilo de Kishomaru Sensei e da sua equipe. O nascimento do Aikido foi acompanhado ao longo dos anos por Saito Sensei. Por isso muitos mestres de Aikido, alunos directos do Fundador mas que pararam de estudar com ele por alguns anos, voltaram a Iwama a aprender com Saito Sensei ou então convidavam-no para ensinar nos seus dojo.

Em Iwama, através do contacto directo com os alunos de O’Sensei e principalmente com a família Saito, podemos aprender tudo isto e muito mais.  Claro que em termos técnicos não podemos sequer comparar com qualquer outro local. Existem professores que aprenderam com Saito Sensei e com o Fundador, mas só até uma data. Depois foram-se embora e nunca mais voltaram. Convidaram Sensei para estágios internacionais nos seus próprios países por uns dias. Mas uns dias não são suficientes para aprenderem o que o mestre tem para ensinar. Sensei disse em 2001 que a técnica dele de 1974 era péssima e que a técnica que veio a mostrar nos novos livros “Takemusu Aikido” era muito mais evoluída e aperfeiçoada. Isto eu ouvi em Iwama e gostei. Realmente, nessa altura já tinha notado uma modificação na sua técnica mas só então é que percebi: melhoramento, aperfeiçoamento; não estagnação. E isto é o que os alunos do nosso grande mestre fizeram: estagnaram e depois não foram a Iwama aprender directamente com ele. Como é possível desenvolver o Aikido se não se estuda para melhorar? Até o Fundador desenvolveu o seu aikido pela sua vida fora.

Bom isto tudo para dizer que Iwama é o local. E em Iwama só Hitohiro Saito Soke nos pode passar esta informação. Este mestre nasceu dentro do dojo de Iwama. Cresceu com o Aikido, cresceu com o Fundador ao seu lado. Como génio que é, e por ter aprendido o Aikido directamente do Fundador e de seu pai, Hitohiro Saito Soke é o único que nos pode ensinar e corrigir.

Ao chegar a Iwama fui convidado por Sensei para um almoço de acolhimento com toda a sua família na sua nova casa. A nova casa foi construída no  mesmo local que a casa antiga do Grande Mestre Saito mas é muito melhor e mais tradicional. De certeza que o Grande Mestre Saito adoraria esta nova casa.

Os uchideshi de Sensei ficam no Shin dojo, o dojo construído pelo seu pai. Ao chegar fui recebido por um uchideshi aluno de Abe Sensei de Osaka (mestre de caligrafia do Fundador) que tinha ficado para me receber. Depois, como é a norma, fui buscar o meu futon e colocar a minha bagagem no local onde iria dormir.

Iwama em Fevereiro é um local muito frio e à noite e de madrugada as temperaturas podem baixar até -10º C. Os uchideshi que se aventuram em Iwama nesta altura devem conseguir aguentar com o frio.

O dia dos uchideshi começa às 5:00h da madrugada. Os uchideshi levantam-se arrumam os seus futons, lavam-se e começam as limpezas do dojo sem esquecer de mudar a água do Kamidana do Shin dojo. Então ajudam Sensei a passear os seus cães (Sensei tem um grande amor pelos cães) e depois dirigem-se para o Tanrenkan.

No Tanrenkan os uchideshi limpam todo o dojo e preparam tudo para a meditação. Depois de preparado o dojo, os uchideshi treinam tanrenuchi enquanto esperam por Sensei. Sensei chega por volta das 7:30h (no Inverno). Depois das suas rezas matinais assistidas pelos uchideshi, Sensei começa o período de meditação que dura por volta de 15 minutos. Este período é de grande importância e algo difícil devido ao intenso frio que se faz sentir. Depois da meditação os uchideshi e Sensei correm para o local de treino de bukiwaza (armas) que fica na floresta em frente ao dojo. Têm de atravessar os arrozais correndo por cima de uma estreita ponte. Na floresta os altos cedros evocam os tempos dos samurais. Ao longe, na estrada, as crianças que caminham para a escola olham com curiosidade para a floresta de onde vêem os kiai.

Os treinos de bukiwaza são frequentados pelos uchideshi e pelos soto deshi.

Depois do treino de jo ou ken, Sensei prossegue para o treino de Shurikenjutsu.

Finalmente, por volta das 9h, acaba o treino e os uchideshi voltam para o Shin dojo, mudam-se para as roupas de trabalho e tomam o pequeno almoço. Depois do pequeno almoço, os uchideshi completam os seus deveres (limpezas etc) e então vão trabalhar com Sensei. No Inverno normalmente o trabalho mais duro é o de cortar lenha.

Depois do trabalho, muitas vezes os uchideshi comem em conjunto com Sensei ou então preparam a sua própria comida. Depois do almoço existe um período de descanso.

Os uchideshi devem fazer o seu treino livre no Shin dojo às 16h. Podem treinar taijutsu ou bukiwaza mas normalmente aproveitam para treinar as técnicas que Sensei corrigiu durante o treino da manhã ou na noite anterior.

A limpeza do Tanrenkan começa por volta das 18h, pois o treino de taijutsu começa às 19h. Depois do treino intenso ainda há um período de treino livre até às 21h. Então, de volta ao Shin Dojo, os uchideshi tomam banho e jantam. Durante o Inverno então sentam-se à volta da salamandra e conversam sobre Aikido, sobre o trabalho do dia e artes marciais em geral.

Em Iwama no dia 12 de Fevereiro houve uma festa no Tanrenkan para celebrar o aniversário do Soke. A esta festa assistiram todos os alunos do Tanrenkan, soto deshi e uchideshi. Vieram inclusive alguns alunos de Tóquio e de outras cidades para esta celebração. 

No dia seguinte Sensei viajou para as Filipinas para visitar orfanatos de crianças mal-formadas pelas radiações de bombas durante a guerra. Sensei doou uma grande soma a alguns destes orfanatos/hospitais. Durante esta viajem acompanharam-no um amigo e um parente seu. Ao voltar vinha obviamente comovido pelo sofrimento desta gente e pelo empenho dos voluntários que ajudam nestes hospitais.

O treino no Tanrenkan continua rigoroso e Sensei exige o máximo de precisão técnica. É muito rigoroso na execução do hanmi correcto, no abaixamento das ancas, na atitude durante o treino, na execução da técnicas com os ângulos correctos. Ao treinar com os praticantes do Tanrenkan, sentimos que se não vamos a Iwama pelo menos uma vez por ano, não conseguiremos acompanhar o aperfeiçoamento técnico.

Desta vez em Iwama estavam Italianos da zona de Ancona, Argentinos de Buenos Aires, Japoneses (de Tóquio, Quioto e Nagoya), e no final chegaram mais dois Suecos, pai e filho para ficarem algum tempo.

No ultimo dia, já estava preparado com a minha bagagem para partir quando chegou um amigo de Sensei e meu companheiro de copos (antigo aluno do grande mestre Saito), embora ele não beba, para me levar ao aeroporto no seu esplêndido carro. Antes de entrar no carro Sensei entra e vem connosco ao aeroporto. Foi para mim uma grande honra ser levado ao aeroporto por Suzukisan e pelo nosso Soke.

Espero sinceramente que todos os alunos do Portugal Aikishuren dojo possam ir a Iwama estudar directamente com Sensei pois é o único local onde realmente se aprende o Aikido puro.

Tristão da Cunha

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