Entrevista ao Professor Tristão da Cunha

1- Pode-nos dizer o seu nome, idade e graduação?
O meu nome é Tristão da Cunha, tenho 38 anos e sou 4ºdan (5ºdan desde 2001-ed) de Aikido, Iwama Ryu. Ensino Aikido a tempo inteiro. Iniciei a minha prática de Aikido em 1980 ou 81, já não me recordo precisamente, em Melbourne, Austrália, na Universidade onde estudava. O meu primeiro professor chamava-se Tony Smibert que era 4º Dan de Aikido, Aikikai. Passado um mês comecei a treinar com um outro professor que fazia Aikido Tradicional, chamado Barry Knight que na altura era 3º Dan, creio, hoje penso que é sexto. Este foi o meu primeiro contacto com o Aikido de Iwama.

2- Quando e onde iniciou a sua prática de Aikido?
TC- Iniciei a minha prática de Aikido em 1980 ou 81, já não me recordo precisamente, em Melbourne, Austrália, na Universidade onde estudava. O meu primeiro professor chamava-se Tony Smibert que era 4º Dan de Aikido, Aikikai. Passado um mês comecei a treinar com um outro professor que fazia Aikido Tradicional, chamado Barry Knight que na altura era 3º Dan, creio, hoje penso que é quinto. Este foi o meu primeiro contacto com o Aikido de Iwama.


1985. Convívio com Morihiro Saito Soke (centro), na Austrália. Da esquerda para a direita, Lester (Tony) Snow, Barry Knight, Nemoto, Saburo Takayasu, Derek Minus e Mic Marelli.

3- Porque é que começou a praticar Aikido?
TC-
Comecei a praticar Aikido por uma questão de defesa pessoal. Eu estava sozinho na Austrália a viver em casa dos meus tios. Eles viajavam muitas vezes e na altura começaram a haver muitas complicações com indivíduos que entravam e assaltavam as casas e carros. Eu senti a responsabilidade de proteger a casa e a mim mesmo, porque viajava bastante para ir para a Universidade. Isso levou-me a querer praticar uma Arte Marcial. Fui, então, às paginas amarelas (Risos) e comecei pelo A, claro, e veio logo Aikido. Entretanto, lembrei-me que a minha mãe tinha, em casa, um livro sobre Aikido, que vim a saber mais tarde ser de Tomiki Aikido, o estilo desportivo, o que me fez ter uma certa curiosidade e fui ver uma aula.

4- Depois disso foi paixão à primeira vista?
TC-
Não,... não foi paixão à primeira vista. Aquilo que aconteceu foi que eu falei mais tarde com este professor, Tony Smibert, vi uma aula e até participei, mas não gostei nada. Achei que aquilo não servia para nada, o que eu queria era coisas à Jackie Chan, com murros e pontapés, pois era este tipo de filmes que me incitavam a praticar Artes Marciais. Mas como tinha muita vergonha, não fui capaz de dizer que não e acabei por dizer que sim, que voltava na próxima semana e como tenho sempre este dever de cumprir com a palavra acabei por ir. E lá fiquei, mesmo sem gostar, mas eles eram muito simpáticos, era um grupo muito simpático. Mais tarde, quando mudei para o Aikido Tradicional, não foi bem uma mudança drástica porque continuei a praticar o Aikikai simultaneamente com o estilo Tradicional. Passado mais ou menos um mês, veio um professor do Japão, que era o Barry Knight, que começou a ensinar armas ao fim-de-semana. Houve entretanto alguém que me perguntou se eu queria lá ir assistir a essa primeira aula de armas e eu fui. Nem sequer sabia que existiam armas no Aikido. Fizemos também um pouco de taijutsu, corpo a corpo, e era completamente diferente do que eu tinha visto. Tinha imensa lógica. Então por uma questão de educação continuei a praticar no Aikikai, duas vezes por semana, na Universidade e ia todos os dias praticar com o Professor Barry Knight, que entretanto abriu aulas durante toda a semana, da parte da manhã e alguns dias à tarde. A distância entre a Universidade e a minha casa e o dojo dele era de cerca de três horas de viagem, mas eu ia à mesma.

 Austrália. Barry Knight


5- Era complicado estar num lado e noutro ao mesmo tempo e ainda estudar na Universidade?
TC-
Era, porque tinha de levantar-me pontualmente às 4.30 h da manhã, ir a correr para a estação para conseguir apanhar o primeiro comboio das cinco e depois apanhar o comboio que fazia a ligação, de forma a chegar a horas à aula do Prof. Barry Knight.

6- Praticou entretanto qualquer outra Arte Marcial?
TC-
Sim, quando era miúdo pratiquei Judo durante dois anos. E detestei. Aqui em Portugal, pratiquei Full-Contact, durante mais ou menos dois anos, com um professor que ensinava no Ginásio da Faculdade de Ciências, onde ensino Aikido. Treinávamos principalmente aos fins-de-semana. Eu ensinava-lhe Aikido e ele ensinava-me Full-Contact. Mais tarde pratiquei Kobujutsu, com o Professor Belmonte, que conhecia muito do sistema de armas de Okinawa e ensinava um estilo, Ryu-Kyu Kobujutsu, que tem muito a ver com o Karate, mas aplicado às armas. Aliás, é um sistema que tem muitas influências de Karate. Praticava eu e outras pessoas que faziam Aikido comigo. O Professor Belmonte ensinou também um estilo de Wu-shu tradicional - Shaolin Chu'n Fa Kenpo, daqueles que pretendiam essencialmente ser eficazes e não estar a tentar desenvolver outras coisas. Actualmente, pratico ainda Shuriken, do estilo Negeshi Ryu, que é uma arte que Saito Sensei ensina.
7- Quando foi pela primeira vez a Iwama?
TC-
A minha primeira ida foi em Maio de 1986.
8- Este foi o marco mais importante do seu envolvimento com o Aikido?
TC-
Sim, definitivamente foi. No princípio, o que mais me influenciou para ir a Iwama foi o Professor Barry Knight, que estava sempre a incentivar os alunos a irem estudar para Iwama. Depois, foi ter conhecido Saito Sensei. Ele foi dar um estágio à Austrália, em Melbourne. Esse foi um acontecimento muito, muito importante e viu-se claramente a importância que Saito Sensei tinha como aluno de O'Sensei. Hoje em dia as suas viagens são normais, mas na altura não estavam nada banalizadas, ele saía muito pouco de Iwama. Por isso, foi um grande acontecimento e vieram praticantes de todo o lado, para participarem no estágio, pessoas do Aikikai e de outros estilos. A forma de ensinar de Saito Sensei era completamente diferente de qualquer outro mestre. Na altura, Saito Sensei era uma pessoa muito severa, mas mesmo assim o que me marcou mais foi a atenção muito, muito especial que deu aos iniciantes. Eu era apenas cinturão branco e na Austrália usavam-se cintos de cor, que era o sistema que o Aikikai usava. Saito Sensei também me utilizou várias vezes como uke, assim como outros cinturões brancos, para mostrar como é que se podia praticar com um principiante e para mostrar a eficácia e o significado das técnicas, sempre com uma postura muito correcta. Adorei o estágio.
Passaram por lá outros mestres, como (Seijuro-ed) Masuda Sensei e (Seiichi - ed) Sugano Sensei, que tinham aquele estilo do Aikikai, eram bons, com aquela eficácia relativa dentro do estilo do Aikikai, mas só ensinavam para cinturões negros e só com estes é que demonstravam. Saito Sensei foi diferente. A partir daí senti um grande desejo de ir a Iwama e, claro, quando lá cheguei foi definitivo.
9- O que foi preciso fazer para ir a Iwama, uma vez que não é um dojo normal em que basta a pessoa inscrever-se?
TC-
Na altura, eu tinha economizado algum dinheiro para ir a Iwama, mas não era o suficiente. Portanto, comecei a trabalhar aqui em Portugal, continuei a treinar Aikido, mas fui também gastando algum dinheiro, pois precisava de viver. Entretanto, o meu pai ajudou-me financeiramente para eu ir para lá. Mas só o dinheiro não chegava, assim como hoje, era necessário ter uma carta de introdução. Pedi então ao meu mestre, Prof. Barry Knight, que me passasse essa carta de introdução, o que fez. Porém, uma das vezes em que Saito Sensei veio à Europa, França, disse que (Nobuyoshi - ed) Tamura Sensei era uma das pessoas que, na Europa, podia passar cartas de introdução e, então, contactei-o e pedi-lhe também uma carta, que ele me deu. Não foi através de nenhum intermediário, como já uma vez ouvi dizer. Tinha assim duas cartas de introdução para poder pedir autorização para ir para Iwama.
Apresentei a Saito Sensei as duas cartas de introdução e fui aceite de imediato. Sensei ficou muito surpreendido porque, em muitos anos, era a primeira pessoa que se apresentava com duas cartas de introdução. Ele também me disse que os seis meses que eu planeava lá ficar era demasiado tempo. Eu tinha a ideia, pelo que me tinham dito, que seis meses de estadia era o mínimo para que pudesse compreender um bocadinho o Aikido. Nessa época, o treino em Iwama era muito, mesmo muito duro, e talvez por isso as pessoas acabassem por ficar menos tempo. Hoje não é assim tão duro, embora ainda seja bastante vigoroso.
10- E hoje em dia, como se passam as coisas? Qual a ligação de Tamura Sensei a Iwama?
TC-
Tamura Sensei nunca teve uma ligação institucional directa com o Dojo de Iwama e actualmente nem sequer há qualquer contacto. Saito Sensei disse aquilo das cartas de introdução por deferência para com Tamura Sensei, que era um dos líderes do Aikido em França. O que se passou foi o seguinte: Saito Sensei foi fazer um estágio a França, a Paris e, como era a primeira vez que lá ia, foi recebido por todos os grupos de Aikido. Estavam presentes todos os mestres, como Noquet Sensei, Tamura Sensei e outros. Noquet Sensei não, mas Tamura Sensei praticou connosco, como qualquer outro aluno. A diferença entre Saito Sensei e Tamura Sensei, em termos de antiguidade, não tinha comparação. Saito Sensei já ensinava quando Tamura Sensei ainda andava a aprender e este via Saito Sensei, inclusivamente, como um ídolo. Tamura Sensei era muito bom uke e Saito Sensei dizia muitas vezes que ele era o seu uke, kohai, preferido. Talvez fosse por causa do espírito. Em jovem, Tamura Sensei tinha um espírito muito correcto e jovial.
Toda a gente ficou impressionada com o estágio, porque Saito Sensei é absolutamente específico no seu ensino, mostrando a eficácia de uma técnica contra a ineficácia de outra, etc. e os participantes não ficaram indiferentes. No final do estágio houve uma sessão de perguntas e uma delas foi o que é que se tinha que fazer para se poder ir a Iwama. Eu desconhecia de todo este procedimento na altura, mas nestas coisas há sempre umas certas cordialidades e então Saito Sensei respondeu que eram necessárias cartas de introdução e que Tamura Sensei podia passá-las.
11- Portanto, Tamura Sensei não tinha de todo qualquer ligação especial à escola de Iwama?
TC-
Não, não tinha, era apenas devido à relação de amizade e respeito entre ele e Saito Sensei. Eu não sabia, mas na Europa a pessoa que realmente podia passar as cartas de introdução era Tomita Sensei e creio também que Ulf Evenas Sensei, da Suécia. Mas eu não os conhecia. E claro, como aquilo que o meu mestre diz é para se fazer, escrevi a Tamura Sensei e pedi a carta de introdução e ele cordialmente deu-ma.
Hoje em dia a forma de ir para Iwama é mais ou menos esta, é preciso uma carta de introdução na mesma, mas as pessoas têm que pedir aos seus próprios professores. Como actualmente já há muitos professores que são ou foram uchideshi (estudantes residentes), em Iwama, são eles que têm a responsabilidade de escrever estas cartas de introdução a todos os que queiram ir.
12- Fale-nos um pouco da sua experiência quando chegou ao Japão.
TC-
Para começar, assim que cheguei ao Japão perdi-me logo. Estive dois dias perdido. Não sabia de todo onde é que estava. Os sinais estavam todos escritos em kanji e embora houvesse alguns em romanji, que eu conseguia ler, tanto me fazia porque também não sabia o que queriam dizer. Por isso, andei perdido de um lado para o outro, durante um dia inteiro. Quando a noite chegou meti-me num hotel, mas saí logo no dia seguinte porque era caríssimo. Meti-me então num táxi para ir para outro hotel, mas ele andou às voltas, porque naquela zona não havia vestígios de outro hotéis, até que encontrámos um. Tive até a ajuda de um estudante universitário que me auxiliou bastante. Ele não sabia falar inglês, mas era muito simpático. 
Entretanto, no dia seguinte, consegui encontrar o número de telefone do Stanley Pranin, editor do Aiki News. Telefonei-lhe e ele deu-me instruções em como chegar até ao Aiki News. Naquela altura a revista Aiki News era elaborada numas instalações muito modestas, numa casinha muito pequenina. Estive a falar com ele e ele deu-me então as instruções para chegar a Iwama. Como ele também vendia armas de Iwama, aproveitei para as comprar. Com as suas instruções foi fácil, a partir daí, chegar ao meu destino. 
Em Iwama há uma etiqueta a respeitar, uma pessoa não pode chegar e entrar no dojo, de qualquer maneira. Quando se chega tem de se ir imediatamente falar com Saito Sensei. E eu não sabia nada disso. As mochilas não se podem pousar no chão e eu, por acaso, não fiz isso, mas houve pessoas que chegaram dois dias depois de mim e as pousaram no chão da rua e tiveram que estar a lavá-las, porque como as mochilas iam ficar dentro do dojo não podiam estar sujas, pois iam conspurcar o dojo. Saito Sensei era muito rigoroso e a disciplina muito rígida.

1986. Iwama. Uchideshi.


Eu fui o primeiro português a ir lá e Sensei recebeu-me como recebe todos os alunos, ofereceu-me um jantar num restaurante perto da quinta, que ainda hoje existe e que pertence a uma das filhas de Sensei. O Stanley Pranin também foi treinar connosco e passar a noite. Também estava Shibata Sensei que me impressionou muito, e ainda impressiona, por toda a etiqueta. Ele foi nessa noite como um guia em termos de etiqueta. Tudo o que ele fazia via-se que estava absolutamente correcto e que manifestava, por Saito Sensei, um profundo respeito. 
Depois os próprios uchideshi que lá estão vão dando indicações daquilo que se deve ou não fazer. O Dai Sempai (o mais antigo-ed) na altura era um jovem japonês, Murata San, e era a referência para todos nós uchideshi. Ele falava pouco inglês, mas era uma pessoa absolutamente correcta. Ajudou-nos bastante. Na altura estava lá o Lewis de Quirós, há já um mês, e uma francesa com quem me dei bem, a Patricia Guérri. Ambos me deram muitas indicações. Os uchideshi ajudam-se bastante uns aos outros, o que era muito importante, porque toda a gente tinha pavor de Saito Sensei. Tinham medo que ele aparecesse de repente, porque quando ele via alguma coisa mal caía logo o Carmo e a Trindade e para que caísse o menos possível, para não o aborrecerem tanto, ajudavam-se rapidamente na etiqueta. Quando ocorriam brechas Saito Sensei, primeiro, repreendia o Dai Sempai, que era o responsável pelos uchideshi e depois todos os outros. Não havia distinções.

Festa em Iwama


13- Todas as pessoas que vão a Iwama sentem que há qualquer coisa de mágico com esse local. Também sente o mesmo?
TC- Sim é verdade. É engraçado que quando fui pela segunda vez a Iwama senti como se tivesse retornado a casa. Da primeira vez, em 1986, o local marcou-me de tal forma o espírito que quando voltei a entrar novamente no dojo parecia que nunca tinha saído de lá. E sei que se passa o mesmo com as outras pessoas. Quando se pisa o tatami, que é duríssimo, sente-se logo que ali é que se estuda a pureza da técnica, o Aikido puro. Só mesmo ali é que se pode aprender, pois está tudo impregnado com o espírito de O'Sensei. É muito importante que as pessoas e os alunos que lá vão saibam a história do Aikido e a importância daquele local, o que ele significava para O'Sensei e tudo o que ele lá fez. Caso contrário, se não tiverem ideia disso, não conseguirão valorizar e não podem assim respeitar. Sente-se sempre que Iwama é um local mágico. Quando se houve falar de Iwama pode-se pensar várias coisas, como um local muito arranjadinho, mas aquilo é apenas uma quinta agrícola. O'Sensei vivia humildemente, numa casa pequena, mesmo em termos japoneses a casa é muito pequena, o dojo é feito em madeira e é muito velho, está cheio de aberturas e o ar entra por toda a parte, tem coisas de barro e materiais de jardinagem e agrícolas por toda a parte. Uma pessoa olha para aquilo e vê uma quinta. No início isso cria um certo choque, porque não é isso que se está à espera de encontrar, mas ao mesmo tempo pensa-se logo, "Ah! Então foi aqui que o Aikido nasceu." E assim, conhecendo-se a história, torna-se sempre uma coisa mágica. Quando fui a Iwama, pela primeira vez, a quinta estava muito mais cuidada, porque Saito Sensei era mais novo e muito mais vigoroso. Hoje não há desleixo, mas como Sensei está num estado espiritual mais avançado já não atribui tanta importância a certas coisas materiais. Na altura era muito rigoroso, em termos de como é que nós deveríamos tratar o dojo e a casa de O'Sensei e éramos constantemente lembrados disso. Haviam muitos alunos de O'Sensei que passavam por Iwama e faziam-se festas a toda a hora, não só de alunos de O'Sensei, colegas antigos de Saito Sensei que lá estudaram, como simplesmente amigos de O'Sensei, que nunca tinham estudado Aikido. Como todas estas pessoas costumavam passar pelo dojo, fazia-nos mesmo lembrar que aquilo era sem dúvida o dojo de O'Sensei. Talvez nessa altura tivesse mais magia do que hoje, porque muitos dos sempai que costumavam praticar lá chegaram mesmo a aprender com O'Sensei. Actualmente, muitos destes antigos alunos de O'Sensei deixaram de fazer Aikido, ou porque estão doentes, devido à idade, ou porque foram ensinar para longe, etc. Estes são também factores determinantes na diferença para os dias de hoje. Já há muitos estrangeiros que vão a Iwama, o que torna o local diferente mas, mesmo assim, quando uma pessoa lá vai sente algo especial. A entrada da quinta faz-se por meio de um carreiro, ladeado de pinheiros e, no final deste, como se estivesse escondida, está a casa de O'Sensei e logo ao lado tem-se o dojo. O dojo não tem portas. Apesar de ser uma quinta, sem vedações, portanto, aberta por todos os lados, a verdade é que ninguém passa por ali, porque têm medo. A própria localidade de Iwama tem casas baixas, todas com jardins, muito bem cuidados, o que lhe dá uma atmosfera muito engraçada e quando se vem a pé do comboio até ao dojo vai-se já criando uma atmosfera tipicamente japonesa. São todas aquelas casas pequeninas com os seus jardins, ao longo do caminho, que nos vai deixando maravilhados. Não deixamos de ver, contudo, que é uma pequena povoação, ainda por urbanizar, pois vemos poços, a descoberto, para onde correm todas as águas da aldeia. Quando se entra na área do dojo de Iwama não há nada alcatroado, é tudo em brita ou terra batida, com árvores por toda a parte, é muito bonito. Cria-se logo um ambiente diferente porque não se vai para uma escola onde se tem um quarto com armários e chave na porta. O melhor que nos podem dar é um cacifo, onde se podem guardar os pertences, mas dormimos no dojo. Sente-se mesmo que era assim que se fazia antigamente e que ainda se faz hoje. E não vai haver mudanças, pelo menos enquanto Sensei for vivo.

Iwama. Homenagem a Saito Soke e sua esposa, com a presença de algumas das mais ilustres personalidades mundiais do Aikido.

É claro que depois há a presença de Saito Sensei e da sua esposa. A mulher de Sensei trabalhou e serviu O'Sensei e sua esposa, bem como toda a família. Além disso, ainda tinha a sua própria família, Saito, para cuidar. Portanto, a esposa de Saito Sensei, ao servir a família do Fundador durante tantos anos e por ter privado com esta, tornou-se um poço de sabedoria no que se relaciona com a história do Aikido. É por isso uma das pessoas que mais conhece o Aikido por dentro. Conhecer a esposa de Saito Sensei é por si só uma regalia e um privilégio. Tudo isto, mais o ambiente físico da quinta, fazem-nos sentir que estamos no lugar certo, no lugar onde o Aikido nasceu e se desenvolveu. E isso é mágico!

Iwama. Biblioteca de O'Sensei.


14- Quais foram as primeiras impressões que teve de Saito Sensei?
TC-
É um pouco difícil falar de Saito Sensei. Eu já o conhecia antes de ir para Iwama, embora não me recorde, de repente, se fiz algum estágio pouco antes de ir para lá. A impressão que tinha dele é que é uma pessoa muito cordial e afável, pois fora de Iwama ele é assim. Quando lá cheguei era uma pessoa completamente diferente. Parecia um demónio. Ele recebeu-me bem, muito bem mesmo, quer dizer, não houve repreensões, nem se irritou comigo, mas eu podia aperceber-me que estava ali alguém que todos temiam. Apercebi-me logo no primeiro treino que ele era muito exigente, e extremamente rigoroso, até ao mais ínfimo detalhe. Ele chegava a parar o treino só por causa de uma pessoa. Era capaz de estar durante todo o treino só a dar atenção a uma pessoa, a tentar educá-la. Dava muita atenção às pessoas, principalmente, àqueles que vinham de fora, como os estrangeiros, ou as pessoas por quem tinha uma consideração especial, para que pudessem aprender rapidamente.
A forma de ensinar de Saito Sensei era muito forte, extremamente vigorosa, e muito severa e eu não estava de todo habituado a ver isso. Depois do primeiro treino uma pessoa fica quase em estado de choque e fica assim até se ir embora. Lembro-me que mesmo depois de me ir embora, ainda estava zonzo, sei que entrei no avião e estava completamente avoado, só por recordar o que tinha passado naqueles seis meses. Ainda hoje tem uma personalidade muito forte, mas como Sensei já está muito desligado das coisas materiais e da vida, mais virado para o lado espiritual, não se nota assim tanto, a não ser quem o conheça, pois ainda recua sempre um passo quando ele se aproxima, porque nunca se sabe o que vai acontecer. Esta foi a sensação que me causou Saito Sensei, quando cheguei a Iwama.
Ao mesmo tempo, Sensei é uma pessoa absolutamente normal. Quando me chamava para trabalhar na quinta, ele já lá estava a trabalhar, não era um mandão, que só mandava e não fazia nada. Muitas vezes, ao fim de um bocado, mandava-nos embora e dizia que já estávamos cansados, mas ele continuava. Ainda hoje é assim, é a pessoa que mais trabalha no dojo, porque ele sente a responsabilidade de tomar conta do dojo de O'Sensei. E então é uma mistura disso tudo, temor, um mestre fantástico, com uma pedagogia incrível e ao mesmo tempo, muito severo. E também é um camponês, uma pessoa absolutamente humilde. Tudo isso cria uma grande confusão na cabeça duma pessoa, mas ao mesmo tempo uma admiração. É mesmo difícil de descrever, para quem não o conhece pessoalmente. Fora de Iwama tem o espírito de uma pomba, mas em Iwama de um tigre - pode explodir a qualquer altura. Antigamente notava-se muito. Actualmente, Saito Sensei aguenta muitas coisas que na altura não aguentava, mas dantes era mais fácil para nós, porque sabia-se rigorosamente o que se podia ou não fazer. Quando o mestre é severo, é muito mais fácil para o aluno aprender.

Iwama. Aiki-Shuren Dojo.

15- O estado de alerta dos estudantes é levado ao máximo!
TC-
Sim, constantemente, quer durante o dia quer durante a noite, se fosse necessário. Saito Sensei aparecia e desaparecia do dojo sem avisar. Às vezes os uchideshi estavam cansados, por trabalhar ou treinar, e ficavam a descansar. De repente, ouviam-se as passadas dele na brita, que já conhecíamos, porque eram diferentes das dos outros. Eram leves, mas muito decididas e no dojo já se sabia - vem aí Sensei. As pessoas levantavam-se logo a trabalhar, ou a fingir que estavam a trabalhar, outras começavam a treinar, ... A verdade é que aquilo era um pavor, porque ele caía-nos em cima, quando não estávamos a fazer nada. Era um mestre muito severo, mas ao mesmo tempo, por exemplo, comia connosco a todas as refeições, às vezes cozinhava, participava em festas, levava-nos a passear pelo campo e a visitar locais do Japão que não conhecíamos, para que pudéssemos conhecer o enquadramento do Aikido na vida japonesa. Ensinava-nos, ainda, como comer à mesa e todas as etiquetas. Era ele que nos ensinava, directamente. Os sempai também nos ensinavam, mas quando ele estava presente toda a gente tinha medo dele e evitavam lá estar. Portanto, era Sensei que estava sempre presente. Havia uma convivência muito grande com ele, tanto na técnica, por ele nos corrigir constantemente, como na camaradagem. Nunca vi, até hoje, uma pessoa tão divertida como Saito Sensei. Quando estava nos jantares fazia-nos rir até cairmos dos bancos, literalmente. Para isso é preciso ter uma qualidade muito especial, saber exactamente como educar, por um lado repreender e, por outro, como fazer com que os alunos relaxem dentro de um sistema tão rígido como é o do Aikido Tradicional. Só Sensei sabe fazer isso, mais ninguém - esta habilidade de mudar de um momento para o outro, ser severo e conseguir ser, também, uma pessoa com uma bondade fora do comum.
Uma vez um estudante americano, que era um rapaz negro, extremamente robusto, enorme, com uns dois metros de altura, ficou doente. Como o treino em Iwama era muito forte, mesmo muito, ele adoeceu gravemente e nem sequer se movia. Nem dormia no dojo, ficou na cozinha velha, que era a cozinha de O'Sensei. Ele esteve nesse local durante três dias e, Sensei, constantemente, a cada meia hora ia lá, durante a noite e durante o dia. Eu sei que ele ia à noite, porque como nós tínhamos a responsabilidade de tomar conta do dojo, sempre que houvesse qualquer barulho acordávamos e eu levantava-me para ver o que se passava. E nessas noites sempre que fui ver era Sensei, que ia visitar o estudante. Passados três dias Sensei fez um remédio com whisky, açúcar e outras coisas, e deu ao rapaz e ele à tarde já estava bom. Foi incrível porque quase nenhum de nós estava preocupado com o rapaz, dizíamos que ele estava sempre doente e que queria era estar deitado, mas Sensei foi a pessoa que esteve, realmente, sempre preocupado com ele e esse tipo de bondade nenhum de nós tinha. Nem tinha, nem tem provavelmente! (Risos) Sensei nunca se esquece de nos perguntar se estamos bem, se alguém está doente, preocupa-se, quer saber se estamos a receber tratamento, está sempre atento, é uma pessoa especial. Sempre foi assim.
16- Quem eram as principais referências entre os alunos mais antigos de Saito Sensei? Como era praticar com eles?
TC-
Dependia da personalidade de cada um. (Ryuji-ed) Inagaki Sensei, Nemoto Sensei eram dos mais antigos. Inagaki Sensei tinha um Aikido muito, muito, rigoroso. Uma aula com ele não era treinar, era sobreviver. Eu tinha pavor de treinar com ele e ainda tenho. O Lewis de Quirós descrevia-o como a força negra do Aikido. No entanto, Inagaki Sensei, é a pessoa mais diplomática possível, um gentleman, tem uma cara muito distinta. Tratou sempre os alunos com a máxima deferência, mesmo dentro do tatami. Ele prova que o Aikido é mesmo eficaz, não deixava dúvidas a ninguém e não é uma pessoa cheia de músculos, é magro, mas com uma eficácia mortal em termos técnicos. Eu tinha pavor de treinar com ele, fiz algumas aulas com ele e não treinei mais porque tinha medo.
Nemoto Sensei era diferente, tinha outra personalidade, também era muito rigoroso no treino, projectava os alunos como deviam ser projectados e os alunos sentiam-se mais calmos, apesar de ele não deixar quaisquer aberturas durante as técnicas. O que havia na altura, tanto com Nemoto Sensei, como com Inagaki Sensei, que na altura eram sempai ainda, assim como com o genro de Saito Sensei, Umezawa San, (Kenichi-ed) Shibata Sensei, e outros, é que eles queriam a toda a força que o aluno passasse também para além da barreira do medo. Praticar as técnicas para além de tudo, não ficar a meio a pensar que não conseguia fazer. Porque ser fraco e pensar, "Hoje não me apetece treinar," não era o tipo de espírito que houvesse em Iwama. Se tinha uma dor ia na mesma treinar, porque o Budo é assim, a pessoa não deixa de lutar, não pode dizer, "Desculpe, mas hoje não vou lutar porque estou doente". A pessoa tem que reagir e deve fazê-lo logo de seguida. Na altura, os sempai davam uma grande ênfase a isso, as pessoas tinham que ser fortes espiritualmente, para poderem enfrentar todas as adversidades.
Portanto, as pessoas já sabiam quando iam treinar com os sempai que os treinos iam ser até ao máximo, no limite. Mas mesmo assim havia sempre cuidado com os principiantes. Eu nunca vi um principiante magoar-se em Iwama. Os outros alunos sim, alguns provocavam lesões pela aplicação de força bruta, ou devido a um pouco mais de violência numa técnica, mas coisas mais graves, como braços partidos e assim, nunca vi. O mais grave que assisti, num treino, foram duas pessoas que chocaram de cabeça com cabeça ao fazerem ukemi e um dos alunos ficou bastante tempo, ainda alguns meses, com tonturas. Não sei como ele estará agora, mas espero que esteja melhor! (Risos) Isto foi a coisa mais violenta a que eu assisti. Todos os treinos eram muito vigorosos, nós sangrávamos de vez em quando, é verdade, ainda hoje é assim, mas pronto, isso faz parte do treino, a única coisa que podíamos fazer era ter cuidado. Não se podia proteger as partes do corpo lesionadas, como pôr ligaduras nos punhos e assim, porque se os sempai descobriam que estávamos com aquele espírito de "mariquinhas", a resguardar uma certa parte do corpo, era ali mesmo que eles mais faziam força. Foi assim no tempo de O'Sensei e quando fui para Iwama a mesma coisa. Hoje em dia tem que se ter mais cuidado por causa dos seguros e dos processos de tribunal que as pessoas põem. Mas na altura era assim que se treinava - tínhamos medo e era mesmo para ter medo! (Risos). Inagaki Sensei, Nemoto Sensei, Shibata Sensei puxavam por nós, não eram pessoas que andassem atrás de nós para nos meter medo, mas puxavam ao máximo, ajudavam-nos. Nós também sabíamos que alguém tinha que treinar com eles e então, muitas vezes, tirávamos à sorte para ver quem é que ia. Outras vezes púnhamo-nos logo atrás deles para que quando começasse o treino pudéssemos saltar para a sua frente e dizer onegaishimasu. Era um processo pelo qual tínhamos que passar, eram etapas. Tínhamos que deixar de lado alguns receios e dizer hoje vou treinar com eles, esta era a sensação que eu tinha e ao falar com os outros apercebi-me que com eles os receios eram iguais, mas tinham de ser ultrapassados. Contudo, havia alunos que não tinham qualquer medo de treinar com os sempai, como o Lewis. Atiravam-se logo para a frente deles. Na altura o Lewis era menos graduado do que eu e por isso ficava logo atrás deles no cerimonial, o que facilitava para poder treinar com eles. Como na altura eu já era cinturão negro ficava na primeira linha, a dos cinturões negros, e então tornava-se difícil eu treinar com os grandes sempai por ficar ligeiramente mais afastado, na outra ponta da fila. Geralmente, tinha a sorte de treinar com o genro de Saito Sensei porque ele chegava quase sempre atrasado, vinha das consultas dele e por esse motivo tinha a sorte de treinar com ele, mas os treinos eram sempre até ao limite e isso era muito bom, mesmo muito.

Iwama. Hitohiro Saito Sensei e Prof. Tristão da Cunha.


17- Pode-nos contar algumas histórias sobre Saito Sensei e lições que tenha recebido?
TC-
Há muitas histórias com Saito Sensei. Sensei sempre detestou, por exemplo, que se estragasse comida ou que as pessoas não comessem porque não gostavam. Ainda hoje ele é assim. Os uchideshi têm sempre que comer. As pessoas que fazem Budo nunca sabem quando é que vão comer da próxima vez, porque têm sempre que estar a servir o mestre e porque nunca sabem quando têm que lutar. O sentimento é este. Como não sabem quando é que vão comer, ou quando lhes dão de comer, têm que comer tudo quando têm oportunidade. Sensei é esse tipo de pessoa.
Posso dar vários exemplos de Sensei como budoca. O esquentador está ligado a uma botija de gás, por isso, quando não está a ser utilizado tem que se apagar, se não pode haver uma explosão ou graves acidentes, pois Iwama é uma zona de sismos. Ele é muito cuidadoso com este tipo de coisas. Sensei é muito rigoroso com o que representa perigo. Mesmo com coisas simples, como com as panelas. Ele tem lá as panelas wok e elas têm tampas de madeira. Cada tampa corresponde a uma panela, porque as tampas são de madeira e se a tampa for maior do que a panela esta queima-se. Uma vez houve um acidente precisamente por causa de uma tampa. Estávamos todos a trabalhar no jardim e Sensei começou aos gritos, de tal forma que até fazia tremer o dojo. Começámos a correr para ver o que era e quando chegámos à cozinha estava Sensei a refilar, eu não percebi muito bem o porquê na altura, só depois é que me explicaram que era por causa das tampas das panelas, que estavam todas queimadas pelo fogo que vinha pelas partes laterais do wok. Isto são cuidados que os alunos não têm. Sensei pega, então, na panela, que estava cheia de sopa, e atira-a para cima de nós (Risos). É claro que a cozinha ficou toda suja de sopa.
Se Saito Sensei não fosse assim tão rigoroso, até ao ponto de ir quase ao extremo da severidade, por uma coisa tão pequena, os alunos nunca prestariam atenção, assim eles lembram-se mesmo que há coisas que são muito importantes, como usar as tampas na panela certa, ter cuidado com as chaleiras e com a comida, ter sempre água quente, etc. Todas estas coisas ensinam que o aikidoca tem que estar, cem por cento, consciente das suas aberturas durante o dia inteiro. Todo o detalhe é importante e esse é que é o ensinamento de Sensei. Com a técnica passa-se o mesmo. A técnica deve ser pura, sem aberturas. Ele dava uma ênfase igual, quer à técnica, quer à vida fora do dojo. Para ele era a mesma coisa. Os sempai também nos ajudavam bastante, por vezes, depois das festas, à noite, vinham ter connosco e falávamos sobre o que era o verdadeiro Budo, a defesa pessoal, como é que deveria ser a prática do Aikido, como é que era servir Sensei, etc.
18- Saito Sensei também ensina uma arte de shuriken. Pode-nos falar um pouco disso?
TC-
Hoje em dia, quando as pessoas pedem a Saito Sensei  para ensinar shuriken, ele chega, faz alguns lançamentos e pronto, acabou a lição (Risos). As pessoas têm depois dez minutos, ou menos, para aprenderem a técnica exactamente como ela é. Antigamente, quando Sensei, em 1986, estava a ensinar shuriken  era muito mais interessante e ficávamos pelo menos uma hora a estudar com ele, um de cada vez. Ele ensinou-nos muita coisa de shuriken, muitos kata e a habilidade dele era absolutamente fascinante. Agora não sei se podemos considerar esta arte como parte do Aikido ou como complemento do Aikido, mas é de facto uma Arte Marcial chamada Negishi Ryu. A pessoa deve também praticar essa arte em si, não só porque foi Sensei que nos transmitiu esse conhecimento, mas porque vale mesmo a pena.
19- Onde é que Saito Sensei aprendeu isso?
TC-
Isso não sei! O que sei, segundo o que me contaram, é que havia um aluno ou uma pessoa que costumava ir a Iwama conversar com O'Sensei sobre Artes Marciais, logo, estava a aprender Aikido com o Fundador e devia ser um praticante de Negishi Ryu. Sensei, ao descobrir que ele sabia shuriken, fez-lhe a proposta de ele ensinar a arte e Saito Sensei lhe ensinar Aikido. Isto foi o que eu ouvi e como nunca faço perguntas a Sensei, não sei (Risos)! Vocês é que podem fazer estas perguntas, porque são mais descarados.
Quando estive em Iwama em 1986, pedimos a Sensei que nos ensinasse, o que já não fazia há algum tempo. Inclusivamente, os shuriken eram guardados no kamisama e já estavam todos ferrugentos da falta de uso. A maior parte das pessoas já nem sequer queria aprender. (Takeji-ed) Tomita Sensei quando passou por Iwama na altura em que eu lá estava é que nos disse que também tinha aprendido essa arte com Saito Sensei, que este era um dos melhores praticantes que havia e que nos explicou um pouco sobre o que era o shuriken. Não demonstrou porque não se pode demonstrar, mas comecei a fazer perguntas a várias pessoas sobre o assunto. Passou por lá também (Kazuo-ed) Chiba Sensei e perguntei-lhe sobre o shuriken e ele respondeu dizendo que o shuriken já lhe tinha sido muito útil na vida (Risos). Não sei qual é que teria sido a utilidade do shuriken para Chiba Sensei (Risos), mas foi o que ele me disse.
Todos os alunos de Saito Sensei aprenderam shuriken. Contaram-me que houve em especial um aluno de Saito Sensei, não sei qual é o nome, que atingiu um nível muito, muito bom de shuriken jutsu. Baseados em tudo isto, fomos fazendo pressão para que Hitohiro Sensei pedisse ao pai para nos ensinar, mas este recusou-se e disse que não ia dizer pois era apenas mais um aluno como nós, mas incentivou-nos a pedir ao Dai Sempai para falar com Saito Sensei. Então Sensei começou a ensinar shuriken. Hitohiro Sensei era muito melhor do que nós com o shuriken, era muito mais avançado e tinha uma técnica, precisão e força incríveis na altura.
20- Mas esta arte de shuriken não se pode demonstrar?
TC-
Sim, não se pode demonstrar, é uma das regras que Sensei tem e obrigava-nos mesmo a assinar um livro em que nos comprometíamos a uma série de coisas e essa era uma delas. Ouvi dizer que antigamente até obrigava a assinar com sangue. Outra regra é que as pessoas também não podem ensinar a não ser que já tenham atingido um certo nível. Este estilo Negishi Ryu é um estilo fenomenal de shuriken jutsu e continua a ser secreto. Em Iwama ainda há quem pratique este estilo, nos tempos livres. Os praticantes ainda são registados no livro, penso que já há três volumes só com os nomes, são centenas ou milhares de alunos que aprenderam com Saito Sensei. Muitos deles são pessoas muito famosas, como embaixadores, mestres de Artes Marciais, etc. Uma vez um Dai Sempai de Iwama leu para nós alguns nomes que estavam nos livros, em voz alta, e ia apontando os que eram famosos como mestres de Artes Marciais, todos eles já tinham vindo aprender com Saito Sensei porque ele era um praticante fenomenal.

Morihiro Saito Soke.


21- Saito Sensei tem revelado muitas preocupações relativamente à forma de ensinar Aikido. Quando o Professor foi pela primeira vez a Iwama já Saito Sensei ensinava no método um-dois-três (realização da técnica movimento por movimento, com paragens), que é a forma mais básica?
TC-
Não, ainda não. Em termos de taijutsu Sensei, para os principiantes e para as pessoas que não percebiam, ensinava passo a passo, como deviam pôr o pé, onde deviam colocar a mão, etc. Lembro-me dele uma vez ensinar kote gaeshi, durante uma semana inteira, a uma pessoa que estava habituada a fazer Aikikai e não conseguia aprender ou perceber a nossa forma de Aikido. O Aikikai tem um estilo muito fluido, redondo, mas cheio de aberturas por todo o lado, por não estarem habituados a praticar com resistência. E Sensei levou uma semana inteira, à volta desta pessoa, a ensiná-lo passo a passo, explicando-lhe esta é a primeira parte do movimento, esta é a segunda, etc. No Taijutsu ele fazia muitas vezes isso.
No caso das armas, aprendíamos a forma geral das sequências e depois tínhamos que sair da linha de ataque, porque os ataques vinham para cima de nós e não havia outra hipótese. Por isso, Sensei ensinava a forma correcta de sair da linha de ataque, para não se ser atingido pela arma. Era literalmente assim, não havia o sistema um-dois-três, como existe hoje em dia. Em 1986 não havia isso. 
Mais tarde, fui a um estágio, creio que foi em Cambridge, Inglaterra, em 1989 e vi, pela primeira vez, as pessoas a praticarem neste sistema um-dois-três. Fiquei sem saber o que se passava, não percebi nada. O Lewis de Quirós, que também foi a esse estágio, é que me explicou o que se passava. Foi também nesse estágio que vi praticarem os ken-tai-jo. Na Austrália já tinha praticado os awase de ken e jo, em Iwama só cheguei a aprender ken com ken e jo com jo

Este tipo de prática que Sensei desenvolveu é muito bom, porque ensina rapidamente a lógica de cada um dos movimentos e a estratégia de combate. O problema é que se pratica já pouco com aquela intenção forte, como o Budo deve ser, as pessoas tendem a desconsiderar a importância do um-dois-três. A forma mais correcta de aprender tenho a certeza de que é essa - passo a passo. É fácil ensinar Aikido desta forma. E de aprender! Mas se a pessoa fizer só movimentos de harmonização com o parceiro e contar cada um dos passos, então não vai perceber nada dos movimentos de um combate “real”, digamos. Em 1986, nós enfrentávamos mesmo o parceiro, fazíamos a vénia e começávamos a praticar partindo um para cima do outro, a ver se nos apanhávamos. E tínhamos mesmo que nos desviar da linha de ataque, recuar ou avançar. E esse treino era muito bom. Sensei era uma pessoa muito rigorosa em termos de detalhes, era mesmo rigoroso, mas dava a liberdade de nós impregnarmos toda a técnica com o nosso espírito. Estávamos constantemente a ser incitados não só por ele, mas também pelos outros sempai e por Hitohiro Sensei, a ter um espírito muito forte durante a técnica, com kiai poderosos e nós, como uchideshi, éramos estimulados a ser fortes, mais fortes que qualquer um dos outros. Aquilo era como se fosse uma batalha autêntica, em frente ao Aiki Jinja (Templo do Aiki – ed). Durante uma hora treinávamos em frente ao Templo e ficávamos completamente exaustos. Se por acaso praticássemos com um dos sempai, o que era difícil porque eles trabalhavam de manhã e não iam ao treino de armas, então o treino de uma hora parecia uma vida inteira, tal era a violência. Parecia que a hora nunca mais acabava, tal o medo, mas era muito bom porque nos ajudavam. Depois íamos treinar durante o dia, em qualquer lado, para podermos sobreviver ao treino seguinte se nos calhasse uma pessoa que estivesse mais avançada ou que tivesse uma técnica muito mais forte que a nossa, o que não quer dizer que fosse mais graduada. Haviam pessoas que eram menos graduadas, mas fortíssimas e nós tínhamos que aguentar aquilo, pois éramos uchideshi.

1996. Iwama. Morihiro Saito Soke. Prática matinal.


22- Na comunidade de Iwama Ryu, o Professor, é conhecido por um dos discípulos mais dedicados a Saito Sensei. Como é possível que uma pessoa esteja quinze anos a viver longe de Iwama e mesmo assim manter todos os ensinamentos como se nunca tivesse saído. O que o faz ser uma das referências do grupo?
TC-
Eu não sei se sou o mais dedicado ou não. Há pessoas muito, muito dedicadas a Sensei, só que não se ouve falar delas. Como sou líder do Aiki-Shuren Dojo, em Portugal, sou o principal aluno de Sensei aqui, as pessoas falam, mas é só por isso. Há outras pessoas que se dedicam, tanto em termos técnicos, como de convivência, com Sensei, de uma forma constante. E não se ouve falar delas. Mas há outras pessoas, destas, que são famosas como Paolo Corallini Sensei, de Itália e Daniel Toutain, da França. Mas o que é mais importante, em qualquer um de nós, é que não podemos esquecer Saito Sensei, em momento algum. No momento em que nos armamos em mestres e esquecemos Sensei, então, está tudo estragado. Podemos ser olhados com a importância de sermos 5º ou 6º dan, mas já não temos importância absolutamente nenhuma, importância real, em termos de Sensei.
Aquilo que eu faço, pessoalmente, é que todos os dias penso no meu Mestre. Quando acordo olho para a fotografia do meu Mestre e à noite, quando me deito, faço o mesmo. E tenho sempre esta ligação. Como já tinha dito, eu estudei em Iwama, pela primeira vez, em 1986. O que acontece com a maior parte das pessoas que foram uchideshi é que quando voltam para casa relaxam. Esta é que é a verdade. As pessoas aprendem muito em Iwama, mas quando regressam aos seus países esquecem, porque relaxam e não dão importância aos ensinamentos principais que Sensei lhes deu, quando lá estiveram. Passados uns anos, até se começa a duvidar da própria eficácia da técnica. Depois, começa-se a pôr em causa se Sensei tem ou não razão quando diz que é o aluno mais chegado de O'Sensei e lhe ter sucedido em termos técnicos. Tudo isso passa e passou, também, pela minha cabeça, é claro! Agora já não, mas passou. Mesmo depois de ter estado em Iwama, há sempre dúvidas como esta, por estarmos afastados. O meu segredo é que cada vez que sou assaltado por estas dúvidas, digo - "Não pode ser! Estou a enfraquecer o meu espírito. É porque não estou a fazer as coisas exactamente como elas devem ser".
Quando cheguei a Portugal, vindo de Iwama pela primeira vez, só tinha quatro tapetes para ensinar. Nos primeiros meses, achava que não era preciso limpá-los, porque em Portugal não se limpavam tapetes. Isto porque eu já cá tinha treinado e não havia limpeza de tapetes, mas depois comecei a pensar e disse - "Não pode ser, os tapetes têm que se limpar, se não as pessoas vão fazer Aikido em cima da porcaria. Temos que os limpar." E a partir daí nunca mais deixei de fazer a limpeza dos tapetes, que é uma coisa importante que Sensei nos ensinou. Como guardar as armas. Não se pode deixar as armas em qualquer lado. Há muitos pequenos ensinamentos que Sensei nos transmitiu no dia a dia, dos quais não nos podemos abster. Temos que nos agarrar a eles com unhas e dentes, porque esse é o ensinamento de Saito Sensei, das pequenas coisas de etiqueta aos mais importantes detalhes técnicos.
Sensei ensina hoje em dia o sistema um-dois-três com armas. Eu treino com os meus parceiros essa forma, mas não posso esquecer que o Aikido é um Budo, que cada uma das técnicas tem que ser praticada, também, como se houvesse uma ferocidade da parte do atacante. Dessa forma, estamos sempre com Saito Sensei em mente, porque é a única pessoa que nos pode transmitir isso. Podemos observar, nos estágios fora de Iwama, que Sensei é uma pessoa muito simpática, a pessoa mais cordial que eu conheço no dia a dia mas, ao mesmo tempo, olha-se para ele e vê-se que ali está um mundo, um universo, inteiro de técnica de Aikido. Eu não me esqueço disso e também não me esqueço do quanto devo a Saito Sensei, por aquilo que ele me ensinou e por ter mudado a minha vida. Ele mudou-me completamente, portanto, tenho um agradecimento profundo a Saito Sensei. Por isso mesmo, tento não esquecer as coisas; ele deu-me tanto que o mínimo que posso fazer é não esquecê-las e passar isso para ver se os outros podem desfrutar da mesma coisa que eu. Agora, se por causa disto tudo sou dos alunos mais respeitados, ou mais queridos de Sensei, isso não sei. Nem realmente me importa! Aquilo que realmente me importa é que ainda tenho que prestar muito serviço ao meu Mestre, comparativamente com aquilo que ele me deu e continua a dar, tanto a mim como aqueles com quem pratico.

1992. Lisboa. Festa em honra de Saito Soke, com a presença de. Paolo Corallini Sensei e Prof. Tristão da Cunha.


23- Pode-se então dizer que o seu compromisso é mais com Saito Sensei que com o Aikido?
TC-
Sim, definitivamente. Sem dúvida. Eu gosto muito de Aikido, claro, mas o Aikido não tem qualquer lógica sem Saito Sensei. Nem sequer se pode pensar em tal coisa. (Risos)

1992. Lisboa. Morihiro Saito Soke e Prof. Tristão da Cunha


24- Muitas pessoas vão a estágios de Saito Sensei devido à sua fama de mestre extraordinário. Contudo, quando o vêem ficam decepcionadas, porque esperam que Saito Sensei se exiba e ele faz tudo menos isso. Tem algum comentário a fazer?
TC-
Tenho sim. É verdade que acontece isso. As pessoas têm um grande defeito, em geral, quando têm muita falta de informação fazem logo comentários. Eu também aceito essa crítica, porque faço isso, auto critico-me constantemente nesse ponto. Aquilo que acontece é que Saito Sensei é uma pessoa de uma humildade absolutamente surpreendente. É inegavelmente o maior mestre de Aikido de todo o Mundo. No Japão, Saito Sensei é uma pessoa respeitada, é mais respeitada do que qualquer outra dentro do Aikido, mesmo havendo mestres mais graduados e muito mais antigos do que ele. Mesmo estes mestres têm um enorme respeito para com Saito Sensei, respeitam-no acima de tudo. Porque ele é uma pessoa com uma dedicação e uma humildade incrível, é uma pessoa que não arreda pé dos seus ideais, do seu comportamento para com O’Sensei; é uma pessoa que não vai por outros caminhos, tem sempre a mesma linha de conduta. Os outros mestres sabem que seguiram outros caminhos para poderem harmonizar, politicamente, com este ou com aquele, ou porque ficaram velhos e têm que fazer as técnicas desta ou daquela forma, etc. E Sensei não, não abdica do caminho que O’Sensei lhe ensinou, continua a cem por cento. Além disso, Sensei tem uma humildade absolutamente fascinante e essa humildade é tão grande que quando uma pessoa o vê, pela primeira vez, a pessoa olha e vê uma pessoa absolutamente normal. Quando se vai a Iwama vê-se Sensei a trabalhar, absorvido naquilo que está a fazer, porque Sensei quando está a trabalhar aplica-se a cem por cento, com uma concentração absoluta. Vê-se Sensei a cortar árvores ou a jardinar, ele próprio faz esse trabalho, não põe as outras pessoas a fazê-lo. As pessoas passam por ele, a caminho do dojo, e pensam que é o jardineiro de serviço, só depois é que vêm a descobrir que aquele é que é o grande mestre. Porque Sensei quando se veste para trabalhar fá-lo de uma forma humilde, com um chapéu de palha, que às vezes até está roto, com as suas luvas, ferramentas, etc. E isto transforma-o numa pessoa absolutamente simples e normal. Eu já o acompanhei e quando viaja é a mesma coisa, com a maior simplicidade possível, nada de luxos. Não se põe com ares de superioridade, não anda com chauffeur, e ele tem idade e prestígio suficiente para isso, ele próprio guia o carro. Também a forma como ele se comporta perante as outras pessoas, a dedicação que ele presta, não só para com os uchideshi, estudantes residentes, mas também para com os estudantes não residentes, sotodeshi, e para com a comunidade em geral. É absolutamente incrível! Tem gostos simples, nada de complicado,  não gosta de rolls-royce, o que gosta é de árvores, plantas, da natureza. Faz-lhe uma complicação enorme haver guerras. Por isso, quando fala dessas coisas as pessoas ficam a olhar para ele e a pensar, “Isto é demasiado simples para ser de um grande mestre.”
Se as pessoas não conhecerem pessoalmente Saito Sensei, a pessoa grande que ele é, tal como é no seu dia a dia, nunca vão compreender. As pessoas até podem ficar admiradas pelo seu nível técnico e pelo que pode transmitir, mas nunca vi ninguém admirá-lo por aquilo que ele é. Aquilo que Sensei tem para vir cá para fora é muito mais do que aquilo que ele alguma vez deu e ele já deu muito, mesmo muito. A informação que apanhamos de Sensei é o suficiente para estarmos a estudar durante “séculos”. É inimitável toda a informação transmitida por Sensei e ele tem muito mais para dar, porque O’Sensei era um génio. A informação que O’Sensei passou a Saito Sensei é descomunal e Sensei diz que ainda está a estudar essa informação, mas as pessoas, no geral, não conseguem ver isso, pensam que é só um mestre que chegou àquele nível e pronto. Mas não. Sensei é uma pessoa que pensa Aikido, que estuda Aikido, que vive Aikido e que constantemente está a estudar o Aikido do seu mestre. As pessoas não estabelecem a relação entre a humildade dele e o fantástico mestre que é, os ensinamentos que transmite, a vivência que ele tem, etc. As pessoas não fazem esse tipo de relações, portanto, é natural que não compreendam muito bem e fiquem até, às vezes, desapontadas – “Afinal o que é que esta pessoa tem de especial?” Tem uma vida tão simples, que fica difícil conceber que seja o maior mestre de Aikido do mundo.
25- Quais são as ligações de Saito Sensei com o Aikikai?
TC-
Saito Sensei é o número um do Aikikai, em termos técnicos. A última pessoa, antes do Doshu, a realizar a sua demonstração de Aikido no festival anual de todos os mestres do Aikikai é Saito Sensei, o que atesta bem a importância que tem dentro desta organização. Agora, se está activo em termos burocráticos, dentro do Aikikai, isso não sei, são coisas pessoais dele, não tenho nada a ver com isso. Nem sequer quero saber! De certeza que tem alguma influência nalgumas decisões do Aikikai, mas não sei até que ponto. No geral, em decisões que estão relacionadas com Iwama, com o Templo de Iwama e com realizações de actividades relacionadas com o Fundador, tem, que eu sei.
Saito Sensei não é funcionário do Aikikai. Nem de ninguém. Saito Sensei não pertence ao grupo de mestres que têm obrigações de ensino para com o Aikikai. Sensei foi e é um servidor de O'Sensei. Se as pessoas o virem a partir desse ponto de vista, então, já podem ter outra impressão dele.
26- Tem-se discutido muito o facto de Saito Sensei ser o sucessor técnico de O'Sensei. Muitos praticantes comparam as imagens, preservadas em vídeo, do Fundador e não conseguem identificar as semelhanças entre ambos, duvidando assim dessa sucessão. Tem algum comentário?
TC-
Eu sempre ouvi as pessoas comentar as semelhanças entre os vários mestres e O'Sensei. Por exemplo, ouvi dizer que Sugano Sensei tinha um Aikido muito mexido, por isso, fazia lembrar O'Sensei. Depois ouvi dizer que Tamura Sensei tinha um Aikido "não sei quê" e também fazia lembrar O'Sensei. Bom, eu vi estes e outros mestres do Aikikai e comparei com os vídeos do Fundador e não há o mínimo de semelhanças. Não há qualquer comparação, porque eles têm aberturas por todo o lado quando executam as técnicas. Em todo o tipo de técnicas. É claro que eles são grandes mestres e eu não devia falar assim destes grandes mestres, mas é o que vejo. E não são só estes que referi, há muitos mais.
O'Sensei quando praticava não tinha aberturas e mesmo quando as permitia sabia que as podia fechar, porque ele era um génio das Artes Marciais. Eu não conheço nenhum génio das Artes Marciais, hoje em dia, e o mais aproximado que conheço é Saito Sensei. O'Sensei quando demonstrava para filmes ou quando fazia demonstrações realizava sempre movimentos fluidos e muito rápidos. Há um dos filmes que mostra O'Sensei no Hombu Dojo a demonstrar vários movimentos em swariwaza e são totalmente iguais aos que se fazem em Iwama, mas mais rápidos, porque O'Sensei era muito rápido a fazer as técnicas. Mas a forma de praticar, desde o iniciar do nikyo, está lá claramente, assim como a forma de executar shihonage e muitas outras. Tudo isso se pode ver no vídeo e é completamente diferente da forma como os outros mestres as fazem. Um dos problemas é que as pessoas não conhecem a forma de praticar as técnicas em Iwama.
Mesmo quando O'Sensei praticava formas fluidas fazia-o com um estado de alerta incrível, porque ele considerava sempre que estava a lidar com um atacante e um atacante é um atacante, por isso, no final, o resultado da técnica era fabuloso. Com os outros mestres não é assim, com eles há sempre uma grande cooperação da parte dos alunos, para poderem fazer ukemi, por exemplo. Eu sei porque também fui aluno de outros mestres; fui aluno, salvo seja! - Treinei muito com eles. Por isso, sei como é.
27- Saito Sensei já tem sucessor que prossiga com a tradição de Iwama?
TC-
Sim já - Hitohiro Saito Sensei é o sucessor do pai.
28- Sucessor natural ou por descendência?
TC-
Primeiro é sucessor por descendência, mas acima de tudo é porque tem a melhor técnica. De todos os mestres que eu tenho visto Hitohiro Sensei é realmente o melhor e ninguém se aproxima do nível dele, nem sequer um pouco. Nem podem fantasiar para chegar ao nível dele! (Risos) Hitohiro Sensei tem uma habilidade natural, talvez por ter nascido dentro do Aikido. Nasceu em Iwama, viveu sempre com O'Sensei e depois de O'Sensei ter morrido continuou com o pai. É que Iwama não se pode ver só como Saito Sensei. Iwama é toda a vivência em si, são todos os grandes mestres e os alunos de O'Sensei que lá estudaram. As pessoas que ali praticam convivem com essa gente toda e aprende-se muito. Hitohiro Sensei é uma dessas pessoas, ele é dos artistas marciais, principalmente dentro do Aikido, mais estimados que eu conheço. É uma pessoa que se dedica a cem por cento. Ele prefere, por exemplo, a convivência dos mestres de Artes Marciais idosos do que das pessoas da idade dele, embora também conviva com essas pessoas, porque tem uma ânsia incrível de aprender. Por isso mesmo, e pela facilidade com que aprende e se dedica, é capaz de conceber logo de imediato. É o melhor de todos.
Lembro-me que quando fui em 1996, juntamente com o Jorge Feio, convidado para ir jantar a casa de Hitohiro Sensei, no último dia em que estávamos em Iwama, mesmo antes de regressar a Portugal, que a primeira coisa que Hitohiro Sensei fez, quando chegou a casa, foi ver um vídeo de O'Sensei. Ele está sempre a ver os vídeos de O'Sensei, é por onde ele estuda. Para além deles consulta constantemente os livros e vídeos de Saito Sensei, ele estuda permanentemente. Mesmo quando não está com o pai a treinar e a aprender, está a estudar. Ele estuda até ao mais ínfimo pormenor, é por isso que tem uma eficácia incrível na técnica e uma força interior descomunal. Obviamente, que toda esta vivência, em termos de Aikido, reflecte-se. Não há ninguém como ele. Mesmo que hajam pessoas que achem que são, não são, as pessoas têm que se confrontar com os factos!
Eu acho que Hitohiro Sensei é o sucessor natural. Agora, se vai suceder o pai em termos organizativos ou se vai haver uma organização de Aikido Tradicional, de Iwama Ryu? Isso duvido, porque não condiz com a personalidade dele.

Da esquerda para a direita: Jorge Feio, Prof. Tristão da Cunha, Saito Soke, Hitohiro Sensei, Nakamura San e esposa. Iwama. 1986.


29- Que diferenças encontrou em ser uchideshi em 1986 e passados dez anos?
TC-
As diferenças são aquelas que eu já falei há pouco. Como Saito Sensei agora está um pouco mais idoso, talvez esteja mais introspectivo. Dedica-se um pouco mais às suas coisas, vemo-lo menos preocupado com certos assuntos. Mesmo assim o sistema continua a ser rigoroso, os Dai Sempai japoneses que lá estão continuam a ajudar muito na orientação dos alunos no caminho correcto, para que não hajam demasiadas baldas. Ao mesmo tempo temos Hitohiro Sensei que está a substituir o pai e tem um grande controle sobre o que se passa dentro do dojo, principalmente, em termos técnicos. Ele é muito exigente com a pureza da técnica, como já não se via há muito. Fora de Iwama não vejo os mestres a terem tal preocupação. Além disso, é extremamente sério na atitude que as pessoas têm que ter durante o treino, não se pode estar a "brincar" durante o treino, tem que haver uma certa reverência, pois é uma coisa muito séria. A pessoa pode treinar alegremente, mas tem que ter uma certa seriedade para com as técnicas de Aikido porque, para Hitohiro Sensei, são técnicas divinas. Ele tem este sentimento porque o que está a ensinar vem directamente do Fundador e pode-se sentir isso no ar porque ele sente essa responsabilidade, não está a ensinar uma criação sua mas de O'Sensei.
Claro que apesar das muitas coisas boas, não é como antigamente, com Saito Sensei a toda a hora a meter-nos medo e a andar sempre atrás de nós para poder ter sempre o controle de tudo. Em 1996 já não senti isso. Não é que eu esteja a culpar Saito Sensei por estas diferenças, pelo contrário, Sensei tem todo o direito de estar como está. Os uchideshi é que são uns grandes mandriões, porque quando lá estão e acabaram o trabalho que estava destinado para fazer durante o dia, e como já treinaram de manhã e já tomaram o pequeno almoço, vão dormir, passear ou telefonar às namoradas que ficaram na Europa ou nos Estados Unidos. E é isso que fazem durante os dias que lá estão e isto é que está mal. A culpa é nossa, pois devíamos estar a praticar e a tomar conta do dojo de O'Sensei, ou ajudar Sensei em tudo o que fosse possível, mas ninguém se preocupa com isso.
30- Era mais fácil no tempo em que Saito Sensei distribuía ordens e tarefas?
TC-
Sim, era mais fácil se ele mandasse (Risos). Como não dá ordens, cruza-se os braços, isso mostra realmente que não somos bons alunos.

Iwama. Morihiro Saito Soke.


31- Porque regressou a Portugal, em 1986, se se identificou tanto com a vida em Iwama?
TC-
Por falta de dinheiro, claro (Risos). Esse foi o principal motivo. Em segundo, porque Sensei pediu-me para montar um dojo em Portugal. Sugeriu que eu pedisse ajuda financeira ao meu pai, mas o meu pai também não tem assim muito dinheiro. Portanto, não foi possível montar um dojo só nosso em Portugal. Entretanto, formou-se uma associação - Aiki-Shuren Dojo mas, nem assim, foi possível montarmos um dojo. Foi essencialmente a falta de dinheiro que me fez regressar a Portugal.
32- Porque é que a escola em Portugal tem o mesmo nome do dojo de O'Sensei em Iwama?
TC-
É muito engraçado (Risos). Nós costumávamos massajar Saito Sensei antes do início de cada aula, Sensei chegava meia hora antes e íamos para a cozinha velha, a de O'Sensei. Sensei deitava-se no chão e nós massajávamo-lo, o que servia de aquecimento para ele e para nós (Risos), porque ficávamos completamente a suar uma vez que Sensei gostava de ser massajado com vigor. Então, numa dessas vezes, Sensei começou a sugerir vários nomes para o meu dojo em Portugal e acabou por escolher Portugal Aiki-Shuren Dojo - "Este é que é o nome correcto para chamares ao teu dojo em Portugal". O que é engraçado é que foi através da massagem que ele foi dando nomes para o dojo. Eu sabia que estava lá escrito, à porta do dojo de Iwama, o mesmo nome - Aiki-Shuren Dojo, mas não sabia muito bem a importância que isso tinha. Mais tarde é que fiquei a saber a importância de se chamar Aiki-Shuren Dojo, pois significa a prática austera da Via do Aiki e ter esse nome significa muita coisa, significa que se realmente queremos merecer o nome, temos que praticar de uma certa forma. Se Sensei deu este nome é porque queria que seguíssemos a Via da prática austera do Aikido, que é a forma como se pratica lá em Iwama. Nós temos tentado, mas é difícil, muito difícil mesmo.
33- Então, regressou a Portugal com uma missão?
TC-
Sim, Sensei deu-me a missão de ensinar e estabelecer cá em Portugal o Aikido Tradicional.
34- É essa missão que o mantém preso a Portugal?
TC-
Manteve, manteve! (Risos) Sim eu estou aqui em Portugal, agora, literalmente só para servir Sensei, mais nada. Na altura, tinha cá a minha avó a viver e também estava a tomar conta dela. Apesar de haver mais familiares que o podiam fazer, eu sentia que era uma obrigação minha. Entretanto, a minha avó morreu, os anos passaram e continuo a ter essa obrigação, apesar da escola já estar formada e de haverem vários dojo a funcionar. Também já há pessoas que sabem técnica suficiente para seguirem sozinhas. No fundo, já está tudo feito! (Risos)
35- Como decorreu a implantação do Aikido em Portugal?
TC-
Quando cheguei a Portugal, em 1986, era difícil ensinar Aikido, porque tinha que se pedir uma autorização à Comissão Directiva das Artes Marciais liderada pelo Comandante Fiadeiro. Era preciso ter uma licença para se poder ensinar Aikido. Para isso fiz um teste, com o Professor Jean-Marc Duclos, para ver se eu sabia Aikido suficiente. Como ele viu que sim, foi-me passada a licença e que ainda hoje tenho em casa, algures.
Comecei a dar aulas no Instituto Superior Técnico, onde tínhamos apenas quatro tapetes e a fotografia de O'Sensei ficava em cima de um daqueles cavalos de ginástica. E era assim que treinávamos, durante mais ou menos dois anos. Chegaram a estar lá onze pessoas. Comecei também a ensinar no Ginásio Ludance, em Carcavelos, mas as condições também eram mínimas e como era complicado andar de um lado para o outro, acabei por sair de lá. Entretanto, também comecei a ensinar no Ginásio da Faculdade de Ciências de Lisboa, onde ainda estou hoje em dia, tendo-se tornado no dojo principal da escola.

Prof. Tristão da Cunha, numa das primeiras demonstrações de Aikido de Iwama em Portugal

36- Ainda há alunos dessa época inicial a praticarem?

TC- Sim, há um – o Luís Pires, que começou no Técnico comigo e que hoje treina em Carcavelos, no Ludance. Havia um outro, que me acompanhou durante bastante tempo, embora já não esteja a praticar agora, o Pedro Ferreira. Mas o núcleo mais antigo de alunos, actualmente, é aquele que começou na Faculdade de Ciências.

37- Quando é que fez a opção de se tornar profissional de Aikido? Considera esta a única opção para quem está interessado num estudo sério do Aikido?

TC- Essa coisa de se ser profissional de Aikido! (Risos) Eu não gosto dessa definição de profissional de Aikido. Para mim, um profissional é uma pessoa que tem vários dojo, onde ensina e recebe um ordenado nessa base. É claro que para se ser profissional de qualquer coisa tem que se ter alguns conhecimentos, para poder transmitir, é assim em qualquer ramo. Se não souber, inventa ou estuda, faz uma vénia aqui e ali e lá se vai tornando num profissional. Isso é o que eu considero um profissional. Não é necessariamente um charlatão, mas um profissional de Artes Marciais é uma coisa muito estranha (Risos), assim como um profissional de qualquer arte. Um profissional de pintura?! Isto não existe, há é artistas; há artistas que as pessoas gostam e outros não. E o Aikido é uma arte também, portanto, há artistas de Aikido. Uma pessoa pode é ser um professor de arte, porque ganha a ensinar a arte, para que outras pessoas se tornem artistas, mas eu não me considero dessa forma. Eu considero-me um aluno de Saito Sensei. Agora, se a associação me der dinheiro para eu poder ir ensinar em vários locais é uma coisa completamente diferente - isso são ajudas de custo (Risos). Aliás, ajudas de custo miseráveis (Risos), mas é o que são. Então, com esse dinheiro, vou ao Alentejo ensinar e a outros locais e mantenho assim vários dojo. A Associação Aiki-Shuren Dojo tem vários dojo, mas cada qual tem o seu próprio professor que tem a mesma obrigação que eu, portanto não me posso considerar profissional de Aikido.
Uma vez Saito Sensei disse qualquer coisa deste género - se a pessoa ensinar Aikido é estúpido e se não ensinar também o é (Risos). Porquê? Porque se depender economicamente do Aikido é estúpido, uma vez que não vai a lado nenhum, é muito difícil tornar-se profissional e ganhar muito dinheiro com o Aikido. Mas se isso acontecer, a pessoa começa a relaxar e praticar o Aikido como arte deixa de ser a coisa mais importante. Começa a dedicar-se mais à política, à organização em termos federativos ou associativos, começa estar preocupado em aumentar o número de dojo e em ter mais alunos e começa a ser importante ter cargos, etc. Tudo isso é uma consequência natural. Por isso, mais uma vez, devemos olhar para Saito Sensei que é o maior mestre do mundo e não tem cargos em parte nenhuma. É somente o Reitor da Escola de Iwama. Mesmo depois de se formarem organizações ligadas a ele, como Iwama Ryu, Takemusu, e outras, organizações que vieram de alunos de Saito Sensei, mas ele continua a não pertencer a qualquer uma. Faz parte do Aikikai, como sempre fez, fundado por O’Sensei e mais nada. Portanto, alguém que se dedique a estas coisas já está a perder muitas outras. No geral, é preciso ter muita força e uma disciplina férrea para se poder dedicar a uma arte, receber dinheiro por isso e poder continuar, mesmo assim, a treinar como se fosse apenas um aikidoca, interessado no seu treino pessoal.
Por outro lado, também é estúpido uma pessoa não ensinar Aikido, porque quando a pessoa é profissional pode dedicar-se a tempo inteiro à arte, não se pode desligar e isso é uma vantagem. Também pode acontecer que a pessoa, quando não ensina, só pratique e apenas se preocupe com o seu treino pessoal, esquecendo coisas importantes como divulgar a arte e ajudar o mestre o expandir o Aikido, como era um dos desejos de O’Sensei. Uma das obrigações de um professor é a divulgação da arte. Só treinando, a pessoa também faz a sua pequena parte pela arte, mas o professor tem obrigação de fazer mais, de a expandir.

38-  Como surgiu a formação da Associação Aiki-Shuren Dojo?

TC- Eu formei a associação para salvaguardar o nome Aiki-Shuren Dojo. Quando cheguei a Portugal apercebi-me rapidamente que havia muito pouco conhecimento sobre Aikido. Apesar de já cá haverem mestres e graduações elevadas a verdade é que, em termos concretos, sabiam muito pouco de Aikido. Haviam uma série de termos e palavras, já para não falar de técnicas e princípios, que estes mestres desconheciam por completo, como buki waza ou ki-no-nagare. Até as palavras que conheciam eram pronunciadas de forma errada, por total desconhecimento da língua japonesa. Ainda hoje há quem diga coisas erradas, por exemplo kihon, em que em vez de pronunciarem “quiHon”, com o “h” aspirado, dizem “quion”. Mesmo os nomes dos mestres são mal ditos, como “Saítu” em vez de “Saitô”, por exemplo. Enfim, os conhecimentos eram poucos. 
Comecei também a ver que, talvez por isso, tinham uma certa necessidade de obter todas as pequenas informações que conseguissem. Queriam aprender, é verdade, mas também queriam logo dizer que só eles é que sabiam aquilo, que só eles é que tinham aprendido, sabe-se lá onde, porque alguns nem tinham mestres e os que tinham atribuíam ao mestre esses conhecimentos. Então vi que corria o perigo de me tirarem o nome Aiki-Shuren Dojo. Mal alguém soubesse que o nome do dojo de O’Sensei era esse, imediatamente, iria apropriar-se dele e eu é que “ficava a ver navios”. Por isso, para conservar o nome fiz a associação. Infelizmente, a combinação dos nomes, se formos a olhar ao sentido, não tem muita lógica, mas pronto por questões legais fiz isso.

Começámos a desenvolver várias iniciativas ao longo do tempo, como os estágios. Penso que foi por influência de pessoas como o José António Carvalho ou o Hugo Ribeiro. Penso que houve várias pessoas que me convenceram a dar estágios, o que é uma coisa muito boa, porque assim os alunos dos vários dojo podem reunir-se e ficar a conhecer-se. Podem ainda comparar o seu nível de desenvolvimento com os outros, o que dá sempre alguma referência para a evolução.

Faculdade de Ciências de Lisboa. Prof. Tristão da Cunha. Início do Aikido de Iwama em Portugal.


No princípio, não haviam estágios, só aulas, eu só ensinava, mais nada, nem sequer haviam graduações, porque nem sequer havia necessidade disso. Nem há ainda grande necessidade, porque quando uma pessoa se dedica mesmo ao estudo da arte não precisa de graduações, o que interessa é treinar e dedicar-se à arte. O que acontece hoje é que as pessoas dedicam-se pouco à arte e, por isso, o professor tem que aproveitar esses poucos momentos e fazer com que alguma coisa fique lá dentro. Nesse sentido, a graduação é muito útil. É das tais coisas - ser necessário por um lado e não ser por outro.
Enquanto organização com alguma abrangência, talvez o sejamos só há quatro anos. O que foi conseguido não foi só graças a mim, mas a todos aqueles que me rodearam e que têm bases para trabalhar de uma forma mais metódica e sistemática. Pois eu não tenho muito, o meu interesse é apenas relativo à prática e ao ensino. A verdade é que passámos a perder muito mais tempo, desde que somos uma organização com outras proporções, em reuniões e em decisões. Mas pronto, também reconheço que é necessário para preservar o Aikido.
Os projectos com que me envolvi, devido à Associação, foram sempre em prol da expansão do Aikido que eu considero ser o único correcto. Quando comecei a dar estágios, em Évora, lembro-me que senti mesmo a necessidade de o fazer, porque tínhamos que passar a técnica que nós aprendemos. Aqui em Lisboa, as pessoas tinham mais possibilidades de ter acesso à informação. No primeiro estágio em Évora estávamos lá três uchideshi de Iwama, eu, o João Gião e a mulher dele, Christian, e só haviam dez praticantes, por isso, aprenderam muito mais depressa, porque eu ensinava uma técnica e imediatamente era praticada sempre com alguém que já a sabia. Foi muito bom, lembro-me perfeitamente desse estágio que decorreu num dojo que já fechou.

Faculdade de Ciências de Lisboa. Prof. Tristão da Cunha. Início do Aikido de Iwama em Portugal.

39- Qual é o estado actual da escola? Sente que está pronta para seguir o seu caminho, sem depender do seu líder?

TC-  Sim, está pronta, porque as pessoas que vão ficar a substituir-me são boas, por isso mesmo é que está pronta. Se eu me fosse embora, a escola podia continuar a sobreviver porque as pessoas que vão ficar à frente dela são realmente muito boas.

Lisboa. Dojo da Faculdade de Ciências de Lisboa. Prof. Tristão da Cunha e José António Carvalho.

40- O estágio internacional anual é o principal evento organizado pela Associação. Como é realizar um estágio internacional, por ano, sem qualquer ajuda financeira?

TC- (Risos) Que o diga o José António e o Hugo Ribeiro! O que se passa é que até ao último momento, até pagar ao mestre que nos visita, é um sufoco. E mesmo depois de lhe pagar, temos que andar à procura de mais dinheiro para pagar às pessoas que foram dando dinheiro para pagar isto ou aquilo. É o terror económico (Risos)! É horrível, mas é um bom treino, porque as pessoas têm que se esforçar e dedicar-se a todos os níveis, toda a gente faz sacrifícios pessoais mas, neste particular, a pessoa que mais se esforça é o José António, pois  é o único que mantém o controle de tudo.

41- O ponto mais alto destes estágios foi a visita de Saito Sensei a Portugal, em 1992?

TC- Sim, definitivamente foi. Foi o primeiro e único estágio que Saito Sensei realizou em Portugal. Nós até o recebemos pessimamente, cada vez que penso nisso... (Risos).  Mas pronto, fizemos tudo aquilo que podíamos dentro das possibilidades económicas que tínhamos, que eram nulas. Hoje em dia estamos um pouco melhor, derivado ao facto de termos mais dojo e, por isso, mais praticantes. Na altura não tínhamos quase ninguém, éramos para aí umas dez ou quinze pessoas e o resto dos praticantes que vieram ao estágio eram pessoas de outras organizações. Na verdade, foram essas pessoas que suportaram o estágio, pela sua presença, porque nós não tínhamos condições, sozinhos, de o fazer. Houve também pessoas que entraram com bastante dinheiro pessoal, como o Pedro Maia que, creio, deu muito dinheiro. Assim, conseguimos pagar a Sensei e as viagens.

 1992. Lisboa. Estágio de Morihiro Saito Soke em Portugal. Foto de grupo.

42- Que praticantes de outras escolas compareceram no estágio?

TC- Penso que foram essencialmente pessoas da A.P.A.D.A., ligadas ao Mestre Stobbaerts, que tinham um estilo de Aikido completamente diferente do nosso e, por isso, talvez estivessem um pouco perdidos. Do Aikikai não veio ninguém, não..., apareceu uma pessoa, se bem me lembro. O que foi bastante estranho, pois não se vê isso em país nenhum. Onde quer que Saito Sensei vá, há sempre dezenas de praticantes do Aikikai que frequentam o estágio, porque Sensei é o top do Aikikai. Já na altura o era, porque era o Reitor da Escola de Iwama, a escola de O’Sensei. Nessa época Sensei já era reconhecido como a pessoa que ensinava o estilo original  do Aikido de O’Sensei e afinal de contas não houve ninguém que aparecesse. Isto, mesmo depois de Tamura Sensei ter dito aos seus alunos, como o Prof. Luís Antunes e os outros, para irem ao seu estágio. Tamura Sensei era o líder do Aikikai em Portugal. Eu ouvi Tamura Sensei dizer expressamente para eles irem ao estágio, eu estava lá quando ele disse isso, em frente a todos do Aikikai. Disse ainda que deviam ir porque Saito Sensei era o melhor mestre. Mas ninguém foi, não seguiram as indicações de Tamura Sensei (Risos). O Aikikai em Portugal sempre foi um pouco especial.  Creio que só foi mesmo essa pessoa que referi há pouco, mas não sei se ficou muito contente porque nunca mais a vi, é que o nosso estilo é muito diferente do resto dos mestres do Aikikai e parece que ninguém acredita mesmo nisso. Enfim, mas foi terrível economicamente. Ao mesmo tempo tivemos o privilégio de ter Saito Sensei connosco, para usufruir do seu ensinamento e companhia, durante cinco dias, que foram absolutamente fantásticos. A partir daí foi a andar em frente, até hoje.

43- Pensa que é por falta de informação que em Portugal ainda não se reconhece o mérito especial de Saito Sensei?

TC- Sim, basicamente, é por falta de informação, tanto dos praticantes portugueses, como até dos seus mestres. As próprias organizações impõem um grande bloqueio da informação correcta, relativamente aos seus praticantes e seleccionam o tipo de informação que querem divulgar. Falo da informação histórica e não só. Toda a informação que o Stanley Pranin tem conseguido divulgar cá para fora é da máxima importância. Porque Saito Sensei afirmava constantemente que era assim que fazia O’Sensei e não se preocupava em apresentar provas, porque ele sabia que era assim e pronto! Foi o Stanley Pranin que descobriu as provas e confirmou que o que Saito Sensei diz é verdade e apresentou factos reais, com provas e datas etc. Sensei nunca se preocupou muito com essas coisas e fica irritado por as pessoas não estarem a fazer o Aikido do Fundador, porque o Aikido do Fundador é que é o Aikido, o resto não é, o resto são estilos que as pessoas inventam. Então, por causa disso mesmo é que é importante praticar com Saito Sensei.

 

 Lisboa. Dojo da Faculdade de Ciências de Lisboa. Prof. Tristão da Cunha.

44- O segundo ponto de viragem na escola foi a presença de Hitohiro Saito Sensei em Portugal, em 1997?

TC- Sim, sim. O filho de Saito Sensei é uma pessoa ainda muito jovial e enérgica, faz-me lembrar o pai quando eu o conheci em 1986. Quando nós o convidamos a vir a Portugal, pela primeira vez, em 1997, as coisas já eram completamente diferentes porque nós já tínhamos uma Associação com vários dojo e, portanto, pudemos desfrutar melhor da sua presença. Já não tínhamos grandes preocupações porque éramos uma escola com alguma dimensão, tivemos só dos praticantes de Iwama Ryu mais de cem pessoas; já sabíamos muito mais sobre como receber um grande mestre devido aos vários estágios que organizámos e a que fomos no estrangeiro, muito mais pessoas tinham ido a Iwama, entretanto, havia pelo menos uma pessoa por ano que lá ia. Todos cooperaram para ajudar os colegas na organização, portanto, pudemos aprender muito mais de Hitohiro Sensei.

 

1997. Lisboa. Estágio internacional com Hitohiro Saito Sensei. Foto de grupo.

 Hitohiro Sensei é como se fosse, também, nosso mestre, porque é a ligação directa entre O’Sensei e Saito Sensei. Para além de ser o filho de Saito Sensei, é um grande mestre e daí que se tenha criado uma ligação tão forte, mais do que tinha havido até essa altura. E esta nossa relação irá ser cada vez mais profunda.

 

2000. Vila Nova de Sto. André. Momento de descontracção. Da esquerda para a direita: Sonoko Tanaka San, Prof. Daniel Toutain, Hitohiro Sensei, Prof. Tristão, Hugo Ribeiro e Ricardo Silva.

45- Considera que o Aikido é uma arte capaz de modificar a personalidade de uma pessoa?

TC- Isso da personalidade é uma coisa de psiquiatras e psicólogos, uns dizem que sim, outros que não é possível alterar a personalidade a partir de uma certa idade. O Aikido é um Budo e este modifica tudo, o Budo pode modificar o mundo inteiro, portanto, também altera o interior das pessoas. A mim modificou-me  completamente! Eu era uma pessoa reservada, tímida, tinha vergonha com tudo, ainda hoje sou um pouco envergonhado, mas tornei-me descarado (Risos). O Aikido obrigou-me naturalmente a ser assim. Comparado com o que era antigamente, já não sou a mesma pessoa,  não tem nada a ver. É claro que algumas coisas continuam a ser iguais, mas a forma como me relaciono com a sociedade e com as pessoas que me rodeiam modificou-se completamente. Porque eu sei que isso aconteceu comigo, acredito que o Aikido tem essa capacidade de modificar. É mesmo uma arte que está concebida para isso, para as pessoas integrarem a sociedade e a poderem servir, exactamente como O’Sensei queria e disse a Saito Sensei quando ele começou a praticar Aikido.

2001. Barragem de Campilhas. Estágio Nacional dirigido pelo Prof. Tristão da Cunha.

46- Quais os princípios fundamentais, na sua opinião, que caracterizam o Aikido, como reigi, giri, kiai, awase, etc?

TC-  Tudo é importante! Acho que uma pessoa não pode dar mais valor a uma coisa que a outra, porque tudo está ligado. Awase é das coisas mais importantes que existem. Se a pessoa consegue fazer awase, então, consegue sincronizar com tudo o que está à sua volta. Ao mesmo tempo, se a pessoa não consegue fazer kiai como deve ser, como é que vai conseguir fazer awase com alguém? Um tem a ver com o outro, definitivamente. O reigi tem a ver com awase, se a pessoa não tiver um awase absolutamente perfeito com o seu mestre, como é que alguma vez o pode servir?
Quando Saito Sensei foi visitar, pela primeira vez, O’Sensei a Iwama era ainda um jovem. Foi recebido no dojo, numa sala pequena, junto à sala dos tapetes – rokujo -  que ainda hoje existe. No momento em que O’Sensei se ia sentar na sala, para falar com o jovem Saito, surge Tadashi Abe a colocar uma almofada por baixo de O’Sensei, mesmo onde ele se ia sentar. O awase, absolutamente fenomenal, de Tadashi Abe deixou o jovem Saito, mesmo sendo japonês, fascinado. A sincronização com que o fez foi realmente surpreendente. Saito Sensei ficou profundamente impressionado com a rapidez e segurança com que este discípulo servia O’Sensei. Portanto awase é muito importante em tudo o que diz respeito a Iwama e lá aprendemos exactamente isso com Sensei. Não é só estar a fazer awase quando se está a receber a técnica e, logo a seguir, esquecer-se a sincronização com tudo o resto?! Etiqueta, reigi, sem awase não serve para nada. De que serve ter um bom awase a praticar com armas se depois, quando acaba, vira as costas ao adversário. É preciso ter uns certos cuidados, etiqueta. Há uma lógica marcial por detrás da etiqueta e é importante aprendê-la.

A melhor forma, aliás, a única forma de aprender todos estes princípios é servir Saito Sensei, porque ele passou 23 anos a aprender estas coisas com O’Sensei, não foi só técnica. Ele não podia relaxar nem um pouco, como os outros alunos podiam, quando o Fundador não estava presente. Saito Sensei, mesmo na ausência do seu mestre, mantinha todo o comportamento como se ele estivesse presente, porque a sua função era representar O’Sensei. Até hoje, Saito Sensei nunca relaxou. Por isso é tão difícil servir Saito Sensei e só ele sabe o que deve ter passado quando O’Sensei era vivo. Basta olharmos para as descrições que todos os mestres fazem das viagens de uns diazitos com o Fundador, para compreendermos o que devem ter sido 23 anos, com O’Sensei sempre “em cima” dele. A coisa mais importante é servir Saito Sensei, caso contrário, não se vai compreender nada de Aikido. A partir daí vem tudo o resto.

2000. Dojo da Faculdade de Ciências de Lisboa. Estágio Nacional. Prof. Tristão da Cunha.

47- O que distingue o Aikido de Iwama dos outros, que já praticou?

TC- O Aikido de Iwama é o Aikido, é puro. Os outros são formas de Aikido, variações, que surgiram a partir de certas pessoas que decidiram criar estes estilos onde dizem que é a sua personalidade a influenciar a técnica e coisas do género. Se uma pessoa cria uma coisa chamada Ketchup, chama-se Ketchup! (Risos) Se vem outra e põe outros ingredientes, terá que lhe dar outro nome, mesmo que seja parecida, porque já não é o original. Se põe outros ingredientes ou se muda as quantidades e a forma de fazer já não é Ketchup, é outra coisa qualquer. Ketchup é Ketchup, porque foi inventado por determinada pessoa, naquela altura e daquela forma, com aqueles ingredientes específicos, e não outros. Assim como um bolo de chocolate tem que ter chocolate, senão não é um bolo de chocolate é um outro bolo. Com o Aikido é exactamente a mesma coisa. O Aikido foi criado com um propósito muito especifico, com técnicas muito especificas, por uma pessoa chamada Morihei Ueshiba. Demorou tempo a ser criado e eu acho que de uma certa forma ainda está a ser criado, agora por Saito Sensei, porque é a única pessoa que tem a informação suficiente para poder codificar e apresentar a arte do Fundador. É isto que é o Aikido de Iwama, estamos a receber essa pureza directamente de O’Sensei, através de Saito Sensei que é a única pessoa que pode realmente fazer isso, pelas razões que já enunciei.
Agora, se os outros criaram outros tipos de estilos, eu não considero isso Aikido. Posso dizer, por educação, quando falo com outras pessoas e outros mestres de outras escolas como sendo tudo Aikido, mas sinceramente, dentro de mim, não consigo considerar o que fazem como sendo Aikido. Por exemplo, uma técnica - iriminage - em que quem faz mais força é o uke, correndo atrás de quem está a fazer a técnica, eu não posso considerar como uma técnica de Aikido, porque irimi significa entrar para projectar e não andar com a pessoa às voltas até ela se deixar cair. Há mestres que não percebem a lógica disso, nem sequer a razão de ser do nome da técnica. E depois é preciso praticar o suficiente, dentro do que é correcto, para se compreender as implicações espirituais, tanto de quem executa a técnica, como de quem a recebe. Se a pessoa não treina o iriminage como deve ser, em toda a sua pureza, nunca chegará lá, não consegue reproduzir essa espiritualidade e acaba por fazer outra coisa qualquer. Logo, está a fazer outra coisa qualquer e não Aikido, que pode ser muito boa para a saúde, para o espírito, etc., mas Aikido é que não é. 
Até hoje, nunca conheci ninguém que tivesse ido a um estágio de Aikido de Iwama e,  por mais alta que fosse a graduação, não se tivesse sentido completamente perdido, porque é mesmo diferente. Em tudo, mesmo naquilo que parece semelhante. Podem não gostar, preferirem as formas derivadas de Aikido, mas nunca saem com a sensação que estiveram num estágio qualquer. O mesmo já não se passa dentro do sistema Aikikai, por exemplo, em que com mais uma variação ou outra, dependendo do mestre, nunca nos sentimos perdidos ou temos dificuldade em fazer as técnicas porque é tudo muito parecido. É difícil que as pessoas compreendam que praticar com outros mestres não nos ensina grande coisa, porque Iwama é tão específico e diferente que pouco podemos aprender de outros lados. É como se estudássemos artes diferentes.

Prof. Tristão da Cunha ensinando Kentaijo, num estágio nacional, no Dojo da Faculdade de Ciências de Lisboa.

48- O praticante de Aikido tem que desenvolver esforços para se harmonizar  com o atacante e, por outro lado, o atacante também tem que se harmonizar

de forma a receber a técnica com o menor dano físico possível. Parece uma contradição. Qual é o limite entre a harmonização e a colaboração no Aikido?

TC- Não há limite nenhum, tem sempre que haver colaboração. O Aikido é um Budo e sendo um Budo puro é extremamente perigoso praticar na sua forma real, portanto, tem que haver sempre uma colaboração, porque senão pelo menos uma das pessoas teria que ficar extremamente ferida ou pior até. Uma coisa assim não pode acontecer, mas para isso, tem que haver sempre uma certa colaboração, senão duas pessoas não podem praticar. Com a prática, talvez esta colaboração possa ir diminuindo a nível físico, mas vai aumentando a nível espiritual. Na verdade, as pessoas deviam lutar para poderem tornar a técnica mais real, mais próxima da verdade, isto é, torná-la na sua forma pura que é mortal, ou pelo menos muito violenta. Contudo, à medida que o nível dos praticantes vai evoluindo, desde que esse nível seja igual entre ambos, deve-se treinar de uma forma cada vez mais sincera. Se um dos parceiros tiver um nível inferior esse tipo de treino pode-se tornar muito perigoso para ele. Quando dois praticantes de alto nível treinam têm que estar cientes do perigo do treino e das consequências de cada técnica. O executante da técnica tem que saber quando deve parar, antes que aconteça um acidente grave. A colaboração inteligente é sempre preciosa. Parece um pouco estranho dizer que na Arte Marcial tem haver colaboração, mas é assim mesmo. Se conseguíssemos criar uma arte onde houvessem acidentes, porque fizemos uma técnica pura, então, essa técnica deixava de ser Aikido.

49- Dentro em breve vai voltar para Iwama, a convite de Hitohiro Sensei, mas desta vez prevê-se que por vários anos. Quais são as suas perspectivas, uma vez que agora já não vai como um principiante, mas sim com um estatuto reconhecido em toda a comunidade ligada a Iwama e não só?

TC- Não penso nesses termos. Uma pessoa quando vai para Iwama tem que estar sempre a pensar que vai como um novato, não passa de um simples principiante. Se eu for a pensar que vou como líder em Portugal, que sou Tristão Sensei, que sou um quarto dan de Iwama, que já pratico há muitos anos, então, nem vale a pena ir, porque aqui em Portugal é que sou um grande mestre. Eu vou mesmo como um principiante e quero esforçar-me por sê-lo. É verdade que não posso deixar de dizer que sou um quarto dan e que sou o líder de Iwama em Portugal, porque todas as pessoas me vêem assim, quer em Portugal, quer fora e até Saito Sensei me vê como o líder por Portugal. Mas não é essa a minha realidade, a minha realidade é que sou apenas um aluno de Saito Sensei.


Itália. Hitohiro Saito Sensei.

Eu vou para Iwama para aprender, aliás, para continuar a aprender e apesar de já andar a estudar há bastante tempo a verdade é que o meu sentimento interno é de um principiante. Quando lá chegar vou olhar para Sensei e vou ficar de "boca aberta", vou ficar parvo e pensar no que é que eu tenho andado a fazer estes anos todos. Por isso, vou ter que rever tudo do princípio. É claro que vai ser mais fácil, porque já vimos muitas coisas entretanto e vou-me lembrar de ensinamentos do passado que já estavam esquecidos, mas sobretudo sei que me vou questionar porque estive longe de Iwama tanto tempo.

2000. Vila Nova de Sto. André. Hitohiro Saito Sensei.

50- Como pensa que vão ser as coisas em Portugal quando for para Iwama?

TC- Não faço a mínima ideia. Como é óbvio, a escola sempre foi influenciada pela minha personalidade, mas nos últimos anos tenho deixado de ser um ditador (Risos) e tenho deixado as pessoas actuarem mais com o seu próprio modo de ser, com as suas qualidades e da forma como acreditam que devem fazer as coisas. Senti a certa altura que isso era absolutamente necessário, porque já sabia que acabava por me ir embora, mais cedo ou mais tarde. Por exigências da conjuntura política governamental actual (Risos), talvez venha a ser necessário que o Aiki-Shuren Dojo - os que ficarem cá terão de decidir isso - enverede por caminhos políticos que são aborrecidos. Felizmente eu não vou ter que fazer esse trabalho (Risos). Caberá à escola fazê-lo. Talvez essa seja a principal diferença quando me for embora. 
Se as pessoas que estão cá continuarem a ir a Iwama continuam exactamente a seguir os ensinamentos de Saito Sensei, que é a pessoa mais importante, logo seguido de Hitohiro Sensei. Como eu vou lá estar, se vir um ou outro português que não tem esse sentimento, nunca mais vou dar licença para um português lá ir (Risos). E quando Sensei me perguntar, porque o vai fazer, digo que não merecem (Risos). Por isso, de certa forma seja bom eu estar lá, porque vou poder fazer força para que haja o máximo de austeridade e exigência com o treino pessoal dos portugueses. Estes vão a Iwama mesmo para aprender Aikido e Sensei e Hitohiro Sensei sabem que podem treinar os portugueses com o máximo de severidade, porque é isso que queremos, porque nós estamos habituados e podemos aguentar com esse tipo de treino e não vamos ficar ofendidos, por isto ou aquilo.
O problema é a politiquice das associações de Artes Marciais, que são obrigadas a modificar-se. Uma pessoa agora é obrigada a ter licenças e seguros para tudo. Quer dizer, uma pessoa vai aprender uma Arte Marcial para aprender a ter segurança na vida e precisa de um seguro de vida (Risos). É ridículo. Depois tem que ter uma licença para ensinar. Mas ensinar o quê? Ninguém está aqui para ensinar, só estamos a praticar. Agora, se eu fosse um grande mestre e tivesse um grande negócio, então, está bem, o Governo podia preocupar-se em saber se eu, ou a Associação, pago ou não impostos, ou se ando a receber dinheiro às escondidas. Essas é que devem ser as preocupações do Governo. As pessoas praticam porque gostam de praticar e estas novas regras vão estragar tudo, aliás, já estão a estragar. Estas ideias começaram na Europa e ainda bem que só agora chegaram a Portugal. Felizmente em Iwama ainda estamos longe disso, podemos concentrar-nos apenas no treino puro. Ali as pessoas poderão relaxar e esquecer as politiquices, o treino é a única coisa que interessa.

As pessoas que estão cá em Portugal terão que seguir o Hugo Ribeiro que é muito bom, eu sei que é porque fui eu que o treinei (Risos), assim como o José António. Se Sensei não tivesse também tomado conta deles e não tivesse atingido  a vida deles profundamente, então, teria que fechar o Aiki Shuren Dojo e dizer - Eu vou-me embora e vocês governem-se.

51- Muitas pessoas consideram estranho o facto de nesta escola não haver paragens dos treinos para férias, Natal, Dia de Ano Novo, etc. Há algum fundamento para esta prática contínua?

TC- Fundamento?! É preciso algum fundamento? É assim mesmo, o Budo tem que ser praticado todos os dias, é o dia a dia, não pode haver férias. Como é que uma pessoa vai fazer férias do seu aperfeiçoamento pessoal? Quer dizer, aos feriados e em Agosto, porque são férias, não há aperfeiçoamento pessoal?! Isso não faz qualquer sentido, a pessoa desenvolve um certo gosto pela arte e sente que tem sempre que estar ligado, é um processo que não tem paragens. Se deixar de praticar perde-se sempre qualquer coisa, a pessoa sabe que tem que ficar forte, física e espiritualmente, e que tem que ajudar os outros a serem pessoas mais dinâmicas e a atingirem os seus objectivo. No Budo nunca se descansa.

2000. Vila Nova de Sto. André. Prof. Tristão da Cunha dando instruções para a preparação do estágio internacional.

52- Como decorre uma aula no Aiki-Shuren Dojo?

TC- Primeiro que tudo, eu tento dar aulas exactamente como se passa em Iwama. De manhã, pelas seis e qualquer coisa, e começo a limpeza. Entretanto, os alunos vão chegando. A aula começa com a saudação tradicional de Iwama e inicia-se a prática. Demonstro sempre as técnicas, com algumas explicações e os alunos tentam seguir as minhas indicações. Temos dois tipos de aulas, as de buki waza, técnicas de armas, e taijutsu, técnicas sem armas. As aulas sem armas começam sempre com algum treino de armas, que é a única coisa que difere de Iwama. Fazemos sempre no início algo de armas que esteja relacionado com as técnicas que iremos estudar ao longo da aula. Eu passei a fazer isso porque em Portugal temos menos tempo para praticar armas, apesar de sermos a escola que mais treina armas. Em Iwama, todas as manhãs há treino de armas e à tarde sem armas. O resto da aula de taijutsu decorre da seguinte forma, começamos sempre com as técnicas mais básicas que O’Sensei fazia em todas as aulas – tai-no-henko e morote dori kokyu-ho. Em seguida fazemos as técnicas por nível crescente de complexidade, mas sempre com lógica, em que estudamos as várias relações, variações, etc. Sempre que existem, executamos as mesmas técnicas em swari waza e tachi waza. No final estudamos o swari waza kokyu-ho. Enfim, utilizamos o mesmo modelo que O’Sensei utilizava em Iwama. Com o buki waza fazemos o mesmo. Primeiro, sempre, executamos suburi, e depois técnicas com duas pessoas ou mais. Cada praticante treina as técnicas dentro do seu nível, mas é a mesma para todos, o  espírito é a única coisa que fica diferente, fica-se mais agressivo, para além obviamente da habilidade de execução. No final de todas as aulas, depois da saudação, voltamos a fazer a limpeza do dojo, uma vez que o estivemos a sujar durante o treino. E pronto, é assim em todos os dojo da escola.

53- Como acha que as outras escolas vêem o Portugal Aiki-Shuren Dojo ?

TC- Creio que vêem com aspectos bons e maus, talvez. Em geral, penso que as pessoas olham para o Aiki-Shuren Dojo de Portugal como sendo o Tristão, que ele é que manda e se se for embora vai tudo por água abaixo, etc. (Risos) É claro que as pessoas que pensam isso não nos conhecem minimamente, obviamente que não vêm às nossas aulas, nem participam nas nossas actividades, portanto, não podem perceber. Durante os estágios internacionais apenas dirijo, quanto muito tenho que dar algumas instruções, apesar de já todos saberem o que é preciso fazer do princípio ao fim com todos os pormenores, porque um estágio está cheio de detalhes. O que acontece é que por vezes é necessário dar um pequeno incentivo para as pessoas não descurarem certos aspectos ou para fazerem as suas tarefas mais rapidamente. Portanto, para dizer a verdade, praticamente limito-me apenas a dar aulas e pouco mais, o tempo em que eu tinha de fazer tudo já lá vai.
Outro aspecto, e também por falta de informação técnica e histórica, as pessoas olham para nós como se nós fossemos uns vaidosos porque temos a mania que só nós é que fazemos o Aikido do Fundador, quando o Aikido, pensam eles, é muito maior que isso e que cada um tem a sua própria forma de Aikido, ... Isso é tudo por falta de informação, uma vez mais. Tenho uma certa pena destas pessoas porque estão enganadas e convencem-se que aquilo que estão a fazer é que é a verdade. Isso é uma pena.
Também há aquelas pessoas que nos admiram, por termos conseguido, em tão pouco tempo, atingir um desenvolvimento da escola que muitos deles só agora estão a atingir, ao fim de muito mais tempo. Temos já um grande número de praticantes, dos que praticam efectivamente e não dos que aparecem só uma vez por outra. E esse é um ponto em que sou rigoroso, as pessoas têm que vir ao treino, se se inscrevem é para aprender. Se só querem aparecer uma vez por outra então que vão praticar outro Aikido ou que vão para a aeróbica, porque estão a ser enganados. É