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1-
Pode-nos dizer o seu nome, idade e graduação?
O meu nome é Tristão da Cunha, tenho 38 anos e sou 4ºdan (5ºdan
desde 2001-ed) de Aikido, Iwama Ryu. Ensino Aikido a tempo inteiro.
Iniciei a minha prática de Aikido em 1980 ou 81, já não me recordo
precisamente, em Melbourne, Austrália, na Universidade onde estudava. O
meu primeiro professor chamava-se Tony Smibert que era 4º Dan de Aikido,
Aikikai. Passado um mês comecei a treinar com um outro professor que
fazia Aikido Tradicional, chamado Barry Knight que na altura era 3º Dan,
creio, hoje penso que é sexto. Este foi o meu primeiro contacto com o
Aikido de Iwama.
2-
Quando e onde iniciou a sua prática de Aikido?
TC- Iniciei a minha prática de Aikido em 1980 ou 81, já não me
recordo precisamente, em Melbourne, Austrália, na Universidade onde
estudava. O meu primeiro professor chamava-se Tony Smibert que era 4º
Dan de Aikido, Aikikai. Passado um mês comecei a treinar com um outro
professor que fazia Aikido Tradicional, chamado Barry Knight que na
altura era 3º Dan, creio, hoje penso que é quinto. Este foi o meu
primeiro contacto com o Aikido de Iwama.

1985. Convívio com Morihiro Saito Soke (centro), na Austrália. Da
esquerda para a direita, Lester (Tony) Snow, Barry Knight, Nemoto,
Saburo Takayasu, Derek Minus e Mic Marelli.
3-
Porque é que começou a praticar Aikido?
TC- Comecei a praticar Aikido por uma questão de defesa pessoal. Eu
estava sozinho na Austrália a viver em casa dos meus tios. Eles
viajavam muitas vezes e na altura começaram a haver muitas complicações
com indivíduos que entravam e assaltavam as casas e carros. Eu senti a
responsabilidade de proteger a casa e a mim mesmo, porque viajava
bastante para ir para a Universidade. Isso levou-me a querer praticar
uma Arte Marcial. Fui, então, às paginas amarelas (Risos) e comecei
pelo A, claro, e veio logo Aikido. Entretanto, lembrei-me que a minha mãe
tinha, em casa, um livro sobre Aikido, que vim a saber mais tarde ser de
Tomiki Aikido, o estilo desportivo, o que me fez ter uma certa
curiosidade e fui ver uma aula.
4-
Depois disso foi paixão à primeira vista?
TC- Não,... não foi paixão à primeira vista. Aquilo que
aconteceu foi que eu falei mais tarde com este professor, Tony Smibert,
vi uma aula e até participei, mas não gostei nada. Achei que aquilo não
servia para nada, o que eu queria era coisas à Jackie Chan, com murros
e pontapés, pois era este tipo de filmes que me incitavam a praticar
Artes Marciais. Mas como tinha muita vergonha, não fui capaz de dizer
que não e acabei por dizer que sim, que voltava na próxima semana e
como tenho sempre este dever de cumprir com a palavra acabei por ir. E lá
fiquei, mesmo sem gostar, mas eles eram muito simpáticos, era um grupo
muito simpático. Mais tarde, quando mudei para o Aikido Tradicional, não
foi bem uma mudança drástica porque continuei a praticar o Aikikai
simultaneamente com o estilo Tradicional. Passado mais ou menos um mês,
veio um professor do Japão, que era o Barry Knight, que começou a
ensinar armas ao fim-de-semana. Houve entretanto alguém que me
perguntou se eu queria lá ir assistir a essa primeira aula de armas e
eu fui. Nem sequer sabia que existiam armas no Aikido. Fizemos também
um pouco de taijutsu, corpo a corpo, e era completamente diferente do
que eu tinha visto. Tinha imensa lógica. Então por uma questão de
educação continuei a praticar no Aikikai, duas vezes por semana, na
Universidade e ia todos os dias praticar com o Professor Barry Knight,
que entretanto abriu aulas durante toda a semana, da parte da manhã e
alguns dias à tarde. A distância entre a Universidade e a minha casa e
o dojo dele era de cerca de três horas de viagem, mas eu ia à mesma.

Austrália.
Barry Knight
5- Era complicado estar num lado e noutro ao mesmo tempo e ainda
estudar na Universidade?
TC- Era, porque tinha de levantar-me pontualmente às 4.30 h da manhã,
ir a correr para a estação para conseguir apanhar o primeiro comboio
das cinco e depois apanhar o comboio que fazia a ligação, de forma a
chegar a horas à aula do Prof. Barry Knight.
6-
Praticou entretanto qualquer outra Arte Marcial?
TC- Sim, quando era miúdo pratiquei Judo durante dois anos. E
detestei. Aqui em Portugal, pratiquei Full-Contact, durante mais ou
menos dois anos, com um professor que ensinava no Ginásio da Faculdade
de Ciências, onde ensino Aikido. Treinávamos principalmente aos
fins-de-semana. Eu ensinava-lhe Aikido e ele ensinava-me Full-Contact.
Mais tarde pratiquei Kobujutsu, com o Professor Belmonte, que conhecia
muito do sistema de armas de Okinawa e ensinava um estilo, Ryu-Kyu
Kobujutsu, que tem muito a ver com o Karate, mas aplicado às armas. Aliás,
é um sistema que tem muitas influências de Karate. Praticava eu e
outras pessoas que faziam Aikido comigo. O Professor Belmonte ensinou
também um estilo de Wu-shu tradicional - Shaolin Chu'n Fa Kenpo,
daqueles que pretendiam essencialmente ser eficazes e não estar a
tentar desenvolver outras coisas. Actualmente, pratico ainda Shuriken,
do estilo Negeshi Ryu, que é uma arte que Saito Sensei ensina.
7- Quando foi pela primeira vez a Iwama?
TC- A minha primeira ida foi em Maio de 1986.
8- Este foi o marco mais importante do seu envolvimento com o Aikido?
TC- Sim, definitivamente foi. No princípio, o que mais me
influenciou para ir a Iwama foi o Professor Barry Knight, que estava
sempre a incentivar os alunos a irem estudar para Iwama. Depois, foi ter
conhecido Saito Sensei. Ele foi dar um estágio à Austrália, em
Melbourne. Esse foi um acontecimento muito, muito importante e viu-se
claramente a importância que Saito Sensei tinha como aluno de O'Sensei.
Hoje em dia as suas viagens são normais, mas na altura não estavam
nada banalizadas, ele saía muito pouco de Iwama. Por isso, foi um
grande acontecimento e vieram praticantes de todo o lado, para
participarem no estágio, pessoas do Aikikai e de outros estilos. A
forma de ensinar de Saito Sensei era completamente diferente de qualquer
outro mestre. Na altura, Saito Sensei era uma pessoa muito severa, mas
mesmo assim o que me marcou mais foi a atenção muito, muito especial
que deu aos iniciantes. Eu era apenas cinturão branco e na Austrália
usavam-se cintos de cor, que era o sistema que o Aikikai usava. Saito
Sensei também me utilizou várias vezes como uke, assim como outros
cinturões brancos, para mostrar como é que se podia praticar com um
principiante e para mostrar a eficácia e o significado das técnicas,
sempre com uma postura muito correcta. Adorei o estágio.
Passaram por lá outros mestres, como (Seijuro-ed) Masuda Sensei e (Seiichi
- ed) Sugano Sensei, que tinham aquele estilo do Aikikai, eram bons, com
aquela eficácia relativa dentro do estilo do Aikikai, mas só ensinavam
para cinturões negros e só com estes é que demonstravam. Saito Sensei
foi diferente. A partir daí senti um grande desejo de ir a Iwama e,
claro, quando lá cheguei foi definitivo.
9- O que foi preciso fazer para ir a Iwama, uma vez que não é um
dojo normal em que basta a pessoa inscrever-se?
TC- Na altura, eu tinha economizado algum dinheiro para ir a Iwama,
mas não era o suficiente. Portanto, comecei a trabalhar aqui em
Portugal, continuei a treinar Aikido, mas fui também gastando algum
dinheiro, pois precisava de viver. Entretanto, o meu pai ajudou-me
financeiramente para eu ir para lá. Mas só o dinheiro não chegava,
assim como hoje, era necessário ter uma carta de introdução. Pedi então
ao meu mestre, Prof. Barry Knight, que me passasse essa carta de introdução,
o que fez. Porém, uma das vezes em que Saito Sensei veio à Europa,
França, disse que (Nobuyoshi - ed) Tamura Sensei era uma das pessoas
que, na Europa, podia passar cartas de introdução e, então,
contactei-o e pedi-lhe também uma carta, que ele me deu. Não foi através
de nenhum intermediário, como já uma vez ouvi dizer. Tinha assim duas
cartas de introdução para poder pedir autorização para ir para Iwama.
Apresentei a Saito Sensei as duas cartas de introdução e fui aceite de
imediato. Sensei ficou muito surpreendido porque, em muitos anos, era a
primeira pessoa que se apresentava com duas cartas de introdução. Ele
também me disse que os seis meses que eu planeava lá ficar era
demasiado tempo. Eu tinha a ideia, pelo que me tinham dito, que seis
meses de estadia era o mínimo para que pudesse compreender um bocadinho
o Aikido. Nessa época, o treino em Iwama era muito, mesmo muito duro, e
talvez por isso as pessoas acabassem por ficar menos tempo. Hoje não é
assim tão duro, embora ainda seja bastante vigoroso.
10- E hoje em dia, como se passam as coisas? Qual a ligação de
Tamura Sensei a Iwama?
TC- Tamura Sensei nunca teve uma ligação institucional directa com
o Dojo de Iwama e actualmente nem sequer há qualquer contacto. Saito
Sensei disse aquilo das cartas de introdução por deferência para com
Tamura Sensei, que era um dos líderes do Aikido em França. O que se
passou foi o seguinte: Saito Sensei foi fazer um estágio a França, a
Paris e, como era a primeira vez que lá ia, foi recebido por todos os
grupos de Aikido. Estavam presentes todos os mestres, como Noquet Sensei,
Tamura Sensei e outros. Noquet Sensei não, mas Tamura Sensei praticou
connosco, como qualquer outro aluno. A diferença entre Saito Sensei e
Tamura Sensei, em termos de antiguidade, não tinha comparação. Saito
Sensei já ensinava quando Tamura Sensei ainda andava a aprender e este
via Saito Sensei, inclusivamente, como um ídolo. Tamura Sensei era
muito bom uke e Saito Sensei dizia muitas vezes que ele era o seu uke,
kohai, preferido. Talvez fosse por causa do espírito. Em jovem, Tamura
Sensei tinha um espírito muito correcto e jovial.
Toda a gente ficou impressionada com o estágio, porque Saito Sensei é
absolutamente específico no seu ensino, mostrando a eficácia de uma técnica
contra a ineficácia de outra, etc. e os participantes não ficaram
indiferentes. No final do estágio houve uma sessão de perguntas e uma
delas foi o que é que se tinha que fazer para se poder ir a Iwama. Eu
desconhecia de todo este procedimento na altura, mas nestas coisas há
sempre umas certas cordialidades e então Saito Sensei respondeu que
eram necessárias cartas de introdução e que Tamura Sensei podia passá-las.
11- Portanto, Tamura Sensei não tinha de todo qualquer ligação
especial à escola de Iwama?
TC- Não, não tinha, era apenas devido à relação de amizade e
respeito entre ele e Saito Sensei. Eu não sabia, mas na Europa a pessoa
que realmente podia passar as cartas de introdução era Tomita Sensei e
creio também que Ulf Evenas Sensei, da Suécia. Mas eu não os
conhecia. E claro, como aquilo que o meu mestre diz é para se fazer,
escrevi a Tamura Sensei e pedi a carta de introdução e ele
cordialmente deu-ma.
Hoje em dia a forma de ir para Iwama é mais ou menos esta, é preciso
uma carta de introdução na mesma, mas as pessoas têm que pedir aos
seus próprios professores. Como actualmente já há muitos professores
que são ou foram uchideshi (estudantes residentes), em Iwama, são eles
que têm a responsabilidade de escrever estas cartas de introdução a
todos os que queiram ir.
12- Fale-nos um pouco da sua experiência quando chegou ao Japão.
TC- Para começar, assim que cheguei ao Japão perdi-me logo. Estive
dois dias perdido. Não sabia de todo onde é que estava. Os sinais
estavam todos escritos em kanji e embora houvesse alguns em romanji, que
eu conseguia ler, tanto me fazia porque também não sabia o que queriam
dizer. Por isso, andei perdido de um lado para o outro, durante um dia
inteiro. Quando a noite chegou meti-me num hotel, mas saí logo no dia
seguinte porque era caríssimo. Meti-me então num táxi para ir para
outro hotel, mas ele andou às voltas, porque naquela zona não havia
vestígios de outro hotéis, até que encontrámos um. Tive até a ajuda
de um estudante universitário que me auxiliou bastante. Ele não sabia
falar inglês, mas era muito simpático.
Entretanto, no dia seguinte, consegui encontrar o número de telefone do
Stanley Pranin, editor do Aiki News. Telefonei-lhe e ele deu-me instruções
em como chegar até ao Aiki News. Naquela altura a revista Aiki News era
elaborada numas instalações muito modestas, numa casinha muito
pequenina. Estive a falar com ele e ele deu-me então as instruções
para chegar a Iwama. Como ele também vendia armas de Iwama, aproveitei
para as comprar. Com as suas instruções foi fácil, a partir daí,
chegar ao meu destino.
Em Iwama há uma etiqueta a respeitar, uma pessoa não pode chegar e
entrar no dojo, de qualquer maneira. Quando se chega tem de se ir
imediatamente falar com Saito Sensei. E eu não sabia nada disso. As
mochilas não se podem pousar no chão e eu, por acaso, não fiz isso,
mas houve pessoas que chegaram dois dias depois de mim e as pousaram no
chão da rua e tiveram que estar a lavá-las, porque como as mochilas
iam ficar dentro do dojo não podiam estar sujas, pois iam conspurcar o
dojo. Saito Sensei era muito rigoroso e a disciplina muito rígida.

1986.
Iwama. Uchideshi.
Eu fui o primeiro português a ir lá e Sensei recebeu-me como recebe
todos os alunos, ofereceu-me um jantar num restaurante perto da quinta,
que ainda hoje existe e que pertence a uma das filhas de Sensei. O
Stanley Pranin também foi treinar connosco e passar a noite. Também
estava Shibata Sensei que me impressionou muito, e ainda impressiona,
por toda a etiqueta. Ele foi nessa noite como um guia em termos de
etiqueta. Tudo o que ele fazia via-se que estava absolutamente correcto
e que manifestava, por Saito Sensei, um profundo respeito.
Depois os próprios uchideshi que lá estão vão dando indicações
daquilo que se deve ou não fazer. O Dai Sempai (o mais antigo-ed) na
altura era um jovem japonês, Murata San, e era a referência para todos
nós uchideshi. Ele falava pouco inglês, mas era uma pessoa
absolutamente correcta. Ajudou-nos bastante. Na altura estava lá o
Lewis de Quirós, há já um mês, e uma francesa com quem me dei bem, a
Patricia Guérri. Ambos me deram muitas indicações. Os uchideshi
ajudam-se bastante uns aos outros, o que era muito importante, porque
toda a gente tinha pavor de Saito Sensei. Tinham medo que ele aparecesse
de repente, porque quando ele via alguma coisa mal caía logo o Carmo e
a Trindade e para que caísse o menos possível, para não o aborrecerem
tanto, ajudavam-se rapidamente na etiqueta. Quando ocorriam brechas
Saito Sensei, primeiro, repreendia o Dai Sempai, que era o responsável
pelos uchideshi e depois todos os outros. Não havia distinções.

Festa
em Iwama
13- Todas as pessoas que vão a Iwama sentem que há qualquer coisa
de mágico com esse local. Também sente o mesmo?
TC- Sim é verdade. É engraçado que quando fui pela segunda vez a
Iwama senti como se tivesse retornado a casa. Da primeira vez, em 1986,
o local marcou-me de tal forma o espírito que quando voltei a entrar
novamente no dojo parecia que nunca tinha saído de lá. E sei que se
passa o mesmo com as outras pessoas. Quando se pisa o tatami, que é duríssimo,
sente-se logo que ali é que se estuda a pureza da técnica, o Aikido
puro. Só mesmo ali é que se pode aprender, pois está tudo impregnado
com o espírito de O'Sensei. É muito importante que as pessoas e os
alunos que lá vão saibam a história do Aikido e a importância
daquele local, o que ele significava para O'Sensei e tudo o que ele lá
fez. Caso contrário, se não tiverem ideia disso, não conseguirão
valorizar e não podem assim respeitar. Sente-se sempre que Iwama é um
local mágico. Quando se houve falar de Iwama pode-se pensar várias
coisas, como um local muito arranjadinho, mas aquilo é apenas uma
quinta agrícola. O'Sensei vivia humildemente, numa casa pequena, mesmo
em termos japoneses a casa é muito pequena, o dojo é feito em madeira
e é muito velho, está cheio de aberturas e o ar entra por toda a
parte, tem coisas de barro e materiais de jardinagem e agrícolas por
toda a parte. Uma pessoa olha para aquilo e vê uma quinta. No início
isso cria um certo choque, porque não é isso que se está à espera de
encontrar, mas ao mesmo tempo pensa-se logo, "Ah! Então foi aqui
que o Aikido nasceu." E assim, conhecendo-se a história, torna-se
sempre uma coisa mágica. Quando fui a Iwama, pela primeira vez, a
quinta estava muito mais cuidada, porque Saito Sensei era mais novo e
muito mais vigoroso. Hoje não há desleixo, mas como Sensei está num
estado espiritual mais avançado já não atribui tanta importância a
certas coisas materiais. Na altura era muito rigoroso, em termos de como
é que nós deveríamos tratar o dojo e a casa de O'Sensei e éramos
constantemente lembrados disso. Haviam muitos alunos de O'Sensei que
passavam por Iwama e faziam-se festas a toda a hora, não só de alunos
de O'Sensei, colegas antigos de Saito Sensei que lá estudaram, como
simplesmente amigos de O'Sensei, que nunca tinham estudado Aikido. Como
todas estas pessoas costumavam passar pelo dojo, fazia-nos mesmo lembrar
que aquilo era sem dúvida o dojo de O'Sensei. Talvez nessa altura
tivesse mais magia do que hoje, porque muitos dos sempai que costumavam
praticar lá chegaram mesmo a aprender com O'Sensei. Actualmente, muitos
destes antigos alunos de O'Sensei deixaram de fazer Aikido, ou porque
estão doentes, devido à idade, ou porque foram ensinar para longe,
etc. Estes são também factores determinantes na diferença para os
dias de hoje. Já há muitos estrangeiros que vão a Iwama, o que torna
o local diferente mas, mesmo assim, quando uma pessoa lá vai sente algo
especial. A entrada da quinta faz-se por meio de um carreiro, ladeado de
pinheiros e, no final deste, como se estivesse escondida, está a casa
de O'Sensei e logo ao lado tem-se o dojo. O dojo não tem portas. Apesar
de ser uma quinta, sem vedações, portanto, aberta por todos os lados,
a verdade é que ninguém passa por ali, porque têm medo. A própria
localidade de Iwama tem casas baixas, todas com jardins, muito bem
cuidados, o que lhe dá uma atmosfera muito engraçada e quando se vem a
pé do comboio até ao dojo vai-se já criando uma atmosfera tipicamente
japonesa. São todas aquelas casas pequeninas com os seus jardins, ao
longo do caminho, que nos vai deixando maravilhados. Não deixamos de
ver, contudo, que é uma pequena povoação, ainda por urbanizar, pois
vemos poços, a descoberto, para onde correm todas as águas da aldeia.
Quando se entra na área do dojo de Iwama não há nada alcatroado, é
tudo em brita ou terra batida, com árvores por toda a parte, é muito
bonito. Cria-se logo um ambiente diferente porque não se vai para uma
escola onde se tem um quarto com armários e chave na porta. O melhor
que nos podem dar é um cacifo, onde se podem guardar os pertences, mas
dormimos no dojo. Sente-se mesmo que era assim que se fazia antigamente
e que ainda se faz hoje. E não vai haver mudanças, pelo menos enquanto
Sensei for vivo.

Iwama.
Homenagem a Saito Soke e sua esposa, com a presença de algumas das mais
ilustres personalidades mundiais do Aikido.
É
claro que depois há a presença de Saito Sensei e da sua esposa. A
mulher de Sensei trabalhou e serviu O'Sensei e sua esposa, bem como toda
a família. Além disso, ainda tinha a sua própria família, Saito,
para cuidar. Portanto, a esposa de Saito Sensei, ao servir a família
do Fundador durante tantos anos e por ter privado com esta, tornou-se um
poço de sabedoria no que se relaciona com a história do Aikido. É por
isso uma das pessoas que mais conhece o Aikido por dentro. Conhecer a
esposa de Saito Sensei é por si só uma regalia e um privilégio.
Tudo isto, mais o ambiente físico da quinta, fazem-nos sentir que
estamos no lugar certo, no lugar onde o Aikido nasceu e se desenvolveu.
E isso é mágico!

Iwama.
Biblioteca de O'Sensei.
14- Quais foram as primeiras impressões que teve de Saito Sensei?
TC- É um pouco difícil falar de Saito Sensei. Eu já o conhecia
antes de ir para Iwama, embora não me recorde, de repente, se fiz algum
estágio pouco antes de ir para lá. A impressão que tinha dele é que
é uma pessoa muito cordial e afável, pois fora de Iwama ele é assim.
Quando lá cheguei era uma pessoa completamente diferente. Parecia um
demónio. Ele recebeu-me bem, muito bem mesmo, quer dizer, não houve
repreensões, nem se irritou comigo, mas eu podia aperceber-me que
estava ali alguém que todos temiam. Apercebi-me logo no primeiro treino
que ele era muito exigente, e extremamente rigoroso, até ao mais ínfimo
detalhe. Ele chegava a parar o treino só por causa de uma pessoa. Era
capaz de estar durante todo o treino só a dar atenção a uma pessoa, a
tentar educá-la. Dava muita atenção às pessoas, principalmente, àqueles
que vinham de fora, como os estrangeiros, ou as pessoas por quem tinha
uma consideração especial, para que pudessem aprender rapidamente.
A forma de ensinar de Saito Sensei era muito forte, extremamente
vigorosa, e muito severa e eu não estava de todo habituado a ver isso.
Depois do primeiro treino uma pessoa fica quase em estado de choque e
fica assim até se ir embora. Lembro-me que mesmo depois de me ir
embora, ainda estava zonzo, sei que entrei no avião e estava
completamente avoado, só por recordar o que tinha passado naqueles seis
meses. Ainda hoje tem uma personalidade muito forte, mas como Sensei já
está muito desligado das coisas materiais e da vida, mais virado para o
lado espiritual, não se nota assim tanto, a não ser quem o conheça,
pois ainda recua sempre um passo quando ele se aproxima, porque nunca se
sabe o que vai acontecer. Esta foi a sensação que me causou Saito
Sensei, quando cheguei a Iwama.
Ao mesmo tempo, Sensei é uma pessoa absolutamente normal. Quando me
chamava para trabalhar na quinta, ele já lá estava a trabalhar, não
era um mandão, que só mandava e não fazia nada. Muitas vezes, ao fim
de um bocado, mandava-nos embora e dizia que já estávamos cansados,
mas ele continuava. Ainda hoje é assim, é a pessoa que mais trabalha
no dojo, porque ele sente a responsabilidade de tomar conta do dojo de
O'Sensei. E então é uma mistura disso tudo, temor, um mestre fantástico,
com uma pedagogia incrível e ao mesmo tempo, muito severo. E também é
um camponês, uma pessoa absolutamente humilde. Tudo isso cria uma
grande confusão na cabeça duma pessoa, mas ao mesmo tempo uma admiração.
É mesmo difícil de descrever, para quem não o conhece pessoalmente.
Fora de Iwama tem o espírito de uma pomba, mas em Iwama de um tigre -
pode explodir a qualquer altura. Antigamente notava-se muito.
Actualmente, Saito Sensei aguenta muitas coisas que na altura não
aguentava, mas dantes era mais fácil para nós, porque sabia-se
rigorosamente o que se podia ou não fazer. Quando o mestre é severo,
é muito mais fácil para o aluno aprender.

Iwama.
Aiki-Shuren Dojo.
15-
O estado de alerta dos estudantes é levado ao máximo!
TC- Sim, constantemente, quer durante o dia quer durante a noite, se
fosse necessário. Saito Sensei aparecia e desaparecia do dojo sem
avisar. Às vezes os uchideshi estavam cansados, por trabalhar ou
treinar, e ficavam a descansar. De repente, ouviam-se as passadas dele
na brita, que já conhecíamos, porque eram diferentes das dos outros.
Eram leves, mas muito decididas e no dojo já se sabia - vem aí Sensei.
As pessoas levantavam-se logo a trabalhar, ou a fingir que estavam a
trabalhar, outras começavam a treinar, ... A verdade é que aquilo era
um pavor, porque ele caía-nos em cima, quando não estávamos a fazer
nada. Era um mestre muito severo, mas ao mesmo tempo, por exemplo, comia
connosco a todas as refeições, às vezes cozinhava, participava em
festas, levava-nos a passear pelo campo e a visitar locais do Japão que
não conhecíamos, para que pudéssemos conhecer o enquadramento do
Aikido na vida japonesa. Ensinava-nos, ainda, como comer à mesa e todas
as etiquetas. Era ele que nos ensinava, directamente. Os sempai também
nos ensinavam, mas quando ele estava presente toda a gente tinha medo
dele e evitavam lá estar. Portanto, era Sensei que estava sempre
presente. Havia uma convivência muito grande com ele, tanto na técnica,
por ele nos corrigir constantemente, como na camaradagem. Nunca vi, até
hoje, uma pessoa tão divertida como Saito Sensei. Quando estava nos
jantares fazia-nos rir até cairmos dos bancos, literalmente. Para isso
é preciso ter uma qualidade muito especial, saber exactamente como
educar, por um lado repreender e, por outro, como fazer com que os
alunos relaxem dentro de um sistema tão rígido como é o do Aikido
Tradicional. Só Sensei sabe fazer isso, mais ninguém - esta habilidade
de mudar de um momento para o outro, ser severo e conseguir ser, também,
uma pessoa com uma bondade fora do comum.
Uma vez um estudante americano, que era um rapaz negro, extremamente
robusto, enorme, com uns dois metros de altura, ficou doente. Como o
treino em Iwama era muito forte, mesmo muito, ele adoeceu gravemente e
nem sequer se movia. Nem dormia no dojo, ficou na cozinha velha, que era
a cozinha de O'Sensei. Ele esteve nesse local durante três dias e,
Sensei, constantemente, a cada meia hora ia lá, durante a noite e
durante o dia. Eu sei que ele ia à noite, porque como nós tínhamos a
responsabilidade de tomar conta do dojo, sempre que houvesse qualquer
barulho acordávamos e eu levantava-me para ver o que se passava. E
nessas noites sempre que fui ver era Sensei, que ia visitar o estudante.
Passados três dias Sensei fez um remédio com whisky, açúcar e outras
coisas, e deu ao rapaz e ele à tarde já estava bom. Foi incrível
porque quase nenhum de nós estava preocupado com o rapaz, dizíamos que
ele estava sempre doente e que queria era estar deitado, mas Sensei foi
a pessoa que esteve, realmente, sempre preocupado com ele e esse tipo de
bondade nenhum de nós tinha. Nem tinha, nem tem provavelmente! (Risos)
Sensei nunca se esquece de nos perguntar se estamos bem, se alguém está
doente, preocupa-se, quer saber se estamos a receber tratamento, está
sempre atento, é uma pessoa especial. Sempre foi assim.
16- Quem eram as principais referências entre os alunos mais antigos
de Saito Sensei? Como era praticar com eles?
TC- Dependia da personalidade de cada um. (Ryuji-ed) Inagaki Sensei,
Nemoto Sensei eram dos mais antigos. Inagaki Sensei tinha um Aikido
muito, muito, rigoroso. Uma aula com ele não era treinar, era
sobreviver. Eu tinha pavor de treinar com ele e ainda tenho. O Lewis de
Quirós descrevia-o como a força negra do Aikido. No entanto, Inagaki
Sensei, é a pessoa mais diplomática possível, um gentleman, tem uma
cara muito distinta. Tratou sempre os alunos com a máxima deferência,
mesmo dentro do tatami. Ele prova que o Aikido é mesmo eficaz, não
deixava dúvidas a ninguém e não é uma pessoa cheia de músculos, é
magro, mas com uma eficácia mortal em termos técnicos. Eu tinha pavor
de treinar com ele, fiz algumas aulas com ele e não treinei mais porque
tinha medo.
Nemoto Sensei era diferente, tinha outra personalidade, também era
muito rigoroso no treino, projectava os alunos como deviam ser
projectados e os alunos sentiam-se mais calmos, apesar de ele não
deixar quaisquer aberturas durante as técnicas. O que havia na altura,
tanto com Nemoto Sensei, como com Inagaki Sensei, que na altura eram
sempai ainda, assim como com o genro de Saito Sensei, Umezawa San, (Kenichi-ed)
Shibata Sensei, e outros, é que eles queriam a toda a força que o
aluno passasse também para além da barreira do medo. Praticar as técnicas
para além de tudo, não ficar a meio a pensar que não conseguia fazer.
Porque ser fraco e pensar, "Hoje não me apetece treinar," não
era o tipo de espírito que houvesse em Iwama. Se tinha uma dor ia na
mesma treinar, porque o Budo é assim, a pessoa não deixa de lutar, não
pode dizer, "Desculpe, mas hoje não vou lutar porque estou
doente". A pessoa tem que reagir e deve fazê-lo logo de seguida.
Na altura, os sempai davam uma grande ênfase a isso, as pessoas tinham
que ser fortes espiritualmente, para poderem enfrentar todas as
adversidades.
Portanto, as pessoas já sabiam quando iam treinar com os sempai que os
treinos iam ser até ao máximo, no limite. Mas mesmo assim havia sempre
cuidado com os principiantes. Eu nunca vi um principiante magoar-se em
Iwama. Os outros alunos sim, alguns provocavam lesões pela aplicação
de força bruta, ou devido a um pouco mais de violência numa técnica,
mas coisas mais graves, como braços partidos e assim, nunca vi. O mais
grave que assisti, num treino, foram duas pessoas que chocaram de cabeça
com cabeça ao fazerem ukemi e um dos alunos ficou bastante tempo, ainda
alguns meses, com tonturas. Não sei como ele estará agora, mas espero
que esteja melhor! (Risos) Isto foi a coisa mais violenta a que eu
assisti. Todos os treinos eram muito vigorosos, nós sangrávamos de vez
em quando, é verdade, ainda hoje é assim, mas pronto, isso faz parte
do treino, a única coisa que podíamos fazer era ter cuidado. Não se
podia proteger as partes do corpo lesionadas, como pôr ligaduras nos
punhos e assim, porque se os sempai descobriam que estávamos com aquele
espírito de "mariquinhas", a resguardar uma certa parte do
corpo, era ali mesmo que eles mais faziam força. Foi assim no tempo de
O'Sensei e quando fui para Iwama a mesma coisa. Hoje em dia tem que se
ter mais cuidado por causa dos seguros e dos processos de tribunal que
as pessoas põem. Mas na altura era assim que se treinava - tínhamos
medo e era mesmo para ter medo! (Risos). Inagaki Sensei, Nemoto Sensei,
Shibata Sensei puxavam por nós, não eram pessoas que andassem atrás
de nós para nos meter medo, mas puxavam ao máximo, ajudavam-nos. Nós
também sabíamos que alguém tinha que treinar com eles e então,
muitas vezes, tirávamos à sorte para ver quem é que ia. Outras vezes
púnhamo-nos logo atrás deles para que quando começasse o treino pudéssemos
saltar para a sua frente e dizer onegaishimasu. Era um processo pelo
qual tínhamos que passar, eram etapas. Tínhamos que deixar de lado
alguns receios e dizer hoje vou treinar com eles, esta era a sensação
que eu tinha e ao falar com os outros apercebi-me que com eles os
receios eram iguais, mas tinham de ser ultrapassados. Contudo, havia
alunos que não tinham qualquer medo de treinar com os sempai, como o
Lewis. Atiravam-se logo para a frente deles. Na altura o Lewis era menos
graduado do que eu e por isso ficava logo atrás deles no cerimonial, o
que facilitava para poder treinar com eles. Como na altura eu já era
cinturão negro ficava na primeira linha, a dos cinturões negros, e então
tornava-se difícil eu treinar com os grandes sempai por ficar
ligeiramente mais afastado, na outra ponta da fila. Geralmente, tinha a
sorte de treinar com o genro de Saito Sensei porque ele chegava quase
sempre atrasado, vinha das consultas dele e por esse motivo tinha a
sorte de treinar com ele, mas os treinos eram sempre até ao limite e
isso era muito bom, mesmo muito.

Iwama. Hitohiro Saito Sensei e Prof. Tristão da Cunha.
17- Pode-nos contar algumas histórias sobre Saito Sensei e lições
que tenha recebido?
TC- Há muitas histórias com Saito Sensei. Sensei sempre detestou,
por exemplo, que se estragasse comida ou que as pessoas não comessem
porque não gostavam. Ainda hoje ele é assim. Os uchideshi têm
sempre que comer. As pessoas que fazem Budo nunca sabem quando é que vão
comer da próxima vez, porque têm sempre que estar a servir o mestre e
porque nunca sabem quando têm que lutar. O sentimento é este. Como não
sabem quando é que vão comer, ou quando lhes dão de comer, têm que
comer tudo quando têm oportunidade. Sensei é esse tipo de pessoa.
Posso dar vários exemplos de Sensei como budoca. O esquentador está
ligado a uma botija de gás, por isso, quando não está a ser utilizado
tem que se apagar, se não pode haver uma explosão ou graves acidentes,
pois Iwama é uma zona de sismos. Ele é muito cuidadoso com este tipo
de coisas. Sensei é muito rigoroso com o que representa perigo. Mesmo
com coisas simples, como com as panelas. Ele tem lá as panelas wok
e elas têm tampas de madeira. Cada tampa corresponde a uma panela,
porque as tampas são de madeira e se a tampa for maior do que a panela
esta queima-se. Uma vez houve um acidente precisamente por causa de uma
tampa. Estávamos todos a trabalhar no jardim e Sensei começou aos
gritos, de tal forma que até fazia tremer o dojo. Começámos a correr
para ver o que era e quando chegámos à cozinha estava Sensei a
refilar, eu não percebi muito bem o porquê na altura, só depois é
que me explicaram que era por causa das tampas das panelas, que estavam
todas queimadas pelo fogo que vinha pelas partes laterais do wok.
Isto são cuidados que os alunos não têm. Sensei pega, então, na
panela, que estava cheia de sopa, e atira-a para cima de nós (Risos).
É claro que a cozinha ficou toda suja de sopa.
Se Saito Sensei não fosse assim tão rigoroso, até ao ponto de ir
quase ao extremo da severidade, por uma coisa tão pequena, os alunos
nunca prestariam atenção, assim eles lembram-se mesmo que há coisas
que são muito importantes, como usar as tampas na panela certa, ter
cuidado com as chaleiras e com a comida, ter sempre água quente, etc.
Todas estas coisas ensinam que o aikidoca tem que estar, cem por cento,
consciente das suas aberturas durante o dia inteiro. Todo o detalhe é
importante e esse é que é o ensinamento de Sensei. Com a técnica
passa-se o mesmo. A técnica deve ser pura, sem aberturas. Ele dava uma
ênfase igual, quer à técnica, quer à vida fora do dojo. Para ele era
a mesma coisa. Os sempai também nos ajudavam bastante, por
vezes, depois das festas, à noite, vinham ter connosco e falávamos
sobre o que era o verdadeiro Budo, a defesa pessoal, como é que deveria
ser a prática do Aikido, como é que era servir Sensei, etc.
18- Saito Sensei também ensina uma arte de shuriken. Pode-nos falar
um pouco disso?
TC- Hoje em dia, quando as pessoas pedem a Saito Sensei para
ensinar shuriken, ele chega, faz alguns lançamentos e pronto,
acabou a lição (Risos). As pessoas têm depois dez minutos, ou menos,
para aprenderem a técnica exactamente como ela é. Antigamente, quando
Sensei, em 1986, estava a ensinar shuriken era muito mais
interessante e ficávamos pelo menos uma hora a estudar com ele, um de
cada vez. Ele ensinou-nos muita coisa de shuriken, muitos kata
e a habilidade dele era absolutamente fascinante. Agora não sei se
podemos considerar esta arte como parte do Aikido ou como complemento do
Aikido, mas é de facto uma Arte Marcial chamada Negishi Ryu. A pessoa
deve também praticar essa arte em si, não só porque foi Sensei que
nos transmitiu esse conhecimento, mas porque vale mesmo a pena.
19- Onde é que Saito Sensei aprendeu isso?
TC- Isso não sei! O que sei, segundo o que me contaram, é que
havia um aluno ou uma pessoa que costumava ir a Iwama conversar com
O'Sensei sobre Artes Marciais, logo, estava a aprender Aikido com o
Fundador e devia ser um praticante de Negishi Ryu. Sensei, ao descobrir
que ele sabia shuriken, fez-lhe a proposta de ele ensinar a arte
e Saito Sensei lhe ensinar Aikido. Isto foi o que eu ouvi e como nunca
faço perguntas a Sensei, não sei (Risos)! Vocês é que podem fazer
estas perguntas, porque são mais descarados.
Quando estive em Iwama em 1986, pedimos a Sensei que nos ensinasse, o
que já não fazia há algum tempo. Inclusivamente, os shuriken
eram guardados no kamisama e já estavam todos ferrugentos da
falta de uso. A maior parte das pessoas já nem sequer queria aprender.
(Takeji-ed) Tomita Sensei quando passou por Iwama na altura em que eu lá
estava é que nos disse que também tinha aprendido essa arte com Saito
Sensei, que este era um dos melhores praticantes que havia e que nos
explicou um pouco sobre o que era o shuriken. Não demonstrou
porque não se pode demonstrar, mas comecei a fazer perguntas a várias
pessoas sobre o assunto. Passou por lá também (Kazuo-ed) Chiba Sensei
e perguntei-lhe sobre o shuriken e ele respondeu dizendo que o shuriken
já lhe tinha sido muito útil na vida (Risos). Não sei qual é que
teria sido a utilidade do shuriken para Chiba Sensei (Risos), mas
foi o que ele me disse.
Todos os alunos de Saito Sensei aprenderam shuriken. Contaram-me
que houve em especial um aluno de Saito Sensei, não sei qual é o nome,
que atingiu um nível muito, muito bom de shuriken jutsu.
Baseados em tudo isto, fomos fazendo pressão para que Hitohiro Sensei
pedisse ao pai para nos ensinar, mas este recusou-se e disse que não ia
dizer pois era apenas mais um aluno como nós, mas incentivou-nos a
pedir ao Dai Sempai para falar com Saito Sensei. Então Sensei começou
a ensinar shuriken. Hitohiro Sensei era muito melhor do que nós
com o shuriken, era muito mais avançado e tinha uma técnica,
precisão e força incríveis na altura.
20- Mas esta arte de shuriken não se pode demonstrar?
TC- Sim, não se pode demonstrar, é uma das regras que Sensei tem e
obrigava-nos mesmo a assinar um livro em que nos comprometíamos a uma série
de coisas e essa era uma delas. Ouvi dizer que antigamente até obrigava
a assinar com sangue. Outra regra é que as pessoas também não podem
ensinar a não ser que já tenham atingido um certo nível. Este estilo
Negishi Ryu é um estilo fenomenal de shuriken jutsu e continua a
ser secreto. Em Iwama ainda há quem pratique este estilo, nos tempos
livres. Os praticantes ainda são registados no livro, penso que já há
três volumes só com os nomes, são centenas ou milhares de alunos que
aprenderam com Saito Sensei. Muitos deles são pessoas muito famosas,
como embaixadores, mestres de Artes Marciais, etc. Uma vez um Dai
Sempai de Iwama leu para nós alguns nomes que estavam nos livros,
em voz alta, e ia apontando os que eram famosos como mestres de Artes
Marciais, todos eles já tinham vindo aprender com Saito Sensei porque
ele era um praticante fenomenal.

Morihiro
Saito Soke.
21- Saito Sensei tem revelado muitas preocupações relativamente à
forma de ensinar Aikido. Quando o Professor foi pela primeira vez a
Iwama já Saito Sensei ensinava no método um-dois-três (realização
da técnica movimento por movimento, com paragens), que é a forma mais
básica?
TC- Não, ainda não. Em
termos de taijutsu Sensei, para os principiantes e para as
pessoas que não percebiam, ensinava passo a passo, como deviam pôr o pé,
onde deviam colocar a mão, etc. Lembro-me dele uma vez ensinar kote
gaeshi, durante uma semana inteira, a uma pessoa que estava
habituada a fazer Aikikai e não conseguia aprender ou perceber a nossa
forma de Aikido. O Aikikai tem um estilo muito fluido, redondo, mas
cheio de aberturas por todo o lado, por não estarem habituados a
praticar com resistência. E Sensei levou uma semana inteira, à volta
desta pessoa, a ensiná-lo passo a passo, explicando-lhe esta é a
primeira parte do movimento, esta é a segunda, etc. No Taijutsu
ele fazia muitas vezes isso.
No caso das armas, aprendíamos a forma geral das sequências e depois tínhamos
que sair da linha de ataque, porque os ataques vinham para cima de nós
e não havia outra hipótese. Por isso, Sensei ensinava a forma correcta
de sair da linha de ataque, para não se ser atingido pela arma. Era
literalmente assim, não havia o sistema um-dois-três, como existe hoje
em dia. Em 1986 não havia isso.
Mais tarde, fui a um estágio, creio que foi em Cambridge, Inglaterra,
em 1989 e vi, pela primeira vez, as pessoas a praticarem neste sistema
um-dois-três. Fiquei sem saber o que se passava, não percebi nada. O
Lewis de Quirós, que também foi a esse estágio, é que me explicou o
que se passava. Foi também nesse estágio que vi praticarem os ken-tai-jo.
Na Austrália já tinha praticado os awase de ken e jo,
em Iwama só cheguei a aprender ken com ken e jo
com jo.
Este tipo de prática que Sensei desenvolveu é muito bom, porque ensina
rapidamente a lógica de cada um dos movimentos e a estratégia de
combate. O problema é que se pratica já pouco com aquela intenção
forte, como o Budo deve ser, as pessoas tendem a desconsiderar a
importância do um-dois-três. A forma mais correcta de aprender tenho a
certeza de que é essa - passo a passo. É fácil ensinar Aikido desta
forma. E de aprender! Mas se a pessoa fizer só movimentos de harmonização
com o parceiro e contar cada um dos passos, então não vai perceber
nada dos movimentos de um combate “real”, digamos. Em 1986, nós
enfrentávamos mesmo o parceiro, fazíamos a vénia e começávamos a
praticar partindo um para cima do outro, a ver se nos apanhávamos. E tínhamos
mesmo que nos desviar da linha de ataque, recuar ou avançar. E esse
treino era muito bom. Sensei era uma pessoa muito rigorosa em termos de
detalhes, era mesmo rigoroso, mas dava a liberdade de nós impregnarmos
toda a técnica com o nosso espírito. Estávamos constantemente a ser
incitados não só por ele, mas também pelos outros sempai e por
Hitohiro Sensei, a ter um espírito muito forte durante a técnica, com kiai
poderosos e nós, como uchideshi, éramos estimulados a ser
fortes, mais fortes que qualquer um dos outros. Aquilo era como se fosse
uma batalha autêntica, em frente ao Aiki Jinja (Templo do Aiki – ed).
Durante uma hora treinávamos em frente ao Templo e ficávamos
completamente exaustos. Se por acaso praticássemos com um dos sempai,
o que era difícil porque eles trabalhavam de manhã e não iam ao
treino de armas, então o treino de uma hora parecia uma vida inteira,
tal era a violência. Parecia que a hora nunca mais acabava, tal o medo,
mas era muito bom porque nos ajudavam. Depois íamos treinar durante o
dia, em qualquer lado, para podermos sobreviver ao treino seguinte se
nos calhasse uma pessoa que estivesse mais avançada ou que tivesse uma
técnica muito mais forte que a nossa, o que não quer dizer que fosse
mais graduada. Haviam pessoas que eram menos graduadas, mas fortíssimas
e nós tínhamos que aguentar aquilo, pois éramos uchideshi.

1996.
Iwama. Morihiro Saito Soke. Prática matinal.
22- Na comunidade de Iwama Ryu, o Professor, é conhecido por um dos
discípulos mais dedicados a Saito Sensei. Como é possível que uma
pessoa esteja quinze anos a viver longe de Iwama e mesmo assim manter
todos os ensinamentos como se nunca tivesse saído. O que o faz ser uma
das referências do grupo?
TC- Eu não sei se sou o mais dedicado ou não. Há pessoas muito,
muito dedicadas a Sensei, só que não se ouve falar delas. Como sou líder
do Aiki-Shuren Dojo, em Portugal, sou o principal aluno de Sensei aqui,
as pessoas falam, mas é só por isso. Há outras pessoas que se
dedicam, tanto em termos técnicos, como de convivência, com Sensei, de
uma forma constante. E não se ouve falar delas. Mas há outras pessoas,
destas, que são famosas como Paolo Corallini Sensei, de Itália e
Daniel Toutain, da França. Mas o que é mais importante, em qualquer um
de nós, é que não podemos esquecer Saito Sensei, em momento algum. No
momento em que nos armamos em mestres e esquecemos Sensei, então, está
tudo estragado. Podemos ser olhados com a importância de sermos 5º ou
6º dan, mas já não temos importância absolutamente nenhuma, importância
real, em termos de Sensei.
Aquilo que eu faço, pessoalmente, é que todos os dias penso no meu
Mestre. Quando acordo olho para a fotografia do meu Mestre e à noite,
quando me deito, faço o mesmo. E tenho sempre esta ligação. Como já
tinha dito, eu estudei em Iwama, pela primeira vez, em 1986. O que
acontece com a maior parte das pessoas que foram uchideshi é que
quando voltam para casa relaxam. Esta é que é a verdade. As pessoas
aprendem muito em Iwama, mas quando regressam aos seus países esquecem,
porque relaxam e não dão importância aos ensinamentos principais que
Sensei lhes deu, quando lá estiveram. Passados uns anos, até se começa
a duvidar da própria eficácia da técnica. Depois, começa-se a pôr
em causa se Sensei tem ou não razão quando diz que é o aluno mais
chegado de O'Sensei e lhe ter sucedido em termos técnicos. Tudo isso
passa e passou, também, pela minha cabeça, é claro! Agora já não,
mas passou. Mesmo depois de ter estado em Iwama, há sempre dúvidas
como esta, por estarmos afastados. O meu segredo é que cada vez que sou
assaltado por estas dúvidas, digo - "Não pode ser! Estou a
enfraquecer o meu espírito. É porque não estou a fazer as coisas
exactamente como elas devem ser".
Quando cheguei a Portugal, vindo de Iwama pela primeira vez, só tinha
quatro tapetes para ensinar. Nos primeiros meses, achava que não era
preciso limpá-los, porque em Portugal não se limpavam tapetes. Isto
porque eu já cá tinha treinado e não havia limpeza de tapetes, mas
depois comecei a pensar e disse - "Não pode ser, os tapetes têm
que se limpar, se não as pessoas vão fazer Aikido em cima da porcaria.
Temos que os limpar." E a partir daí nunca mais deixei de fazer a
limpeza dos tapetes, que é uma coisa importante que Sensei nos ensinou.
Como guardar as armas. Não se pode deixar as armas em qualquer lado. Há
muitos pequenos ensinamentos que Sensei nos transmitiu no dia a dia, dos
quais não nos podemos abster. Temos que nos agarrar a eles com unhas e
dentes, porque esse é o ensinamento de Saito Sensei, das pequenas
coisas de etiqueta aos mais importantes detalhes técnicos.
Sensei ensina hoje em dia o sistema um-dois-três com armas. Eu treino
com os meus parceiros essa forma, mas não posso esquecer que o Aikido
é um Budo, que cada uma das técnicas tem que ser praticada,
também, como se houvesse uma ferocidade da parte do atacante. Dessa
forma, estamos sempre com Saito Sensei em mente, porque é a única
pessoa que nos pode transmitir isso. Podemos observar, nos estágios
fora de Iwama, que Sensei é uma pessoa muito simpática, a pessoa mais
cordial que eu conheço no dia a dia mas, ao mesmo tempo, olha-se para
ele e vê-se que ali está um mundo, um universo, inteiro de técnica de
Aikido. Eu não me esqueço disso e também não me esqueço do quanto
devo a Saito Sensei, por aquilo que ele me ensinou e por ter mudado a
minha vida. Ele mudou-me completamente, portanto, tenho um agradecimento
profundo a Saito Sensei. Por isso mesmo, tento não esquecer as coisas;
ele deu-me tanto que o mínimo que posso fazer é não esquecê-las e
passar isso para ver se os outros podem desfrutar da mesma coisa que eu.
Agora, se por causa disto tudo sou dos alunos mais respeitados, ou mais
queridos de Sensei, isso não sei. Nem realmente me importa! Aquilo que
realmente me importa é que ainda tenho que prestar muito serviço ao
meu Mestre, comparativamente com aquilo que ele me deu e continua a dar,
tanto a mim como aqueles com quem pratico.

1992.
Lisboa. Festa em honra de Saito Soke, com a presença de. Paolo
Corallini Sensei e Prof. Tristão da Cunha.
23- Pode-se então dizer que o seu compromisso é mais com Saito
Sensei que com o Aikido?
TC- Sim, definitivamente. Sem dúvida. Eu gosto muito de Aikido,
claro, mas o Aikido não tem qualquer lógica sem Saito Sensei. Nem
sequer se pode pensar em tal coisa. (Risos)

1992.
Lisboa. Morihiro Saito Soke e Prof. Tristão da Cunha
24- Muitas pessoas vão a estágios de Saito Sensei devido à sua
fama de mestre extraordinário. Contudo, quando o vêem ficam
decepcionadas, porque esperam que Saito Sensei se exiba e ele faz tudo
menos isso. Tem algum comentário a fazer?
TC- Tenho sim. É verdade
que acontece isso. As pessoas têm um grande defeito, em geral, quando têm
muita falta de informação fazem logo comentários. Eu também aceito
essa crítica, porque faço isso, auto critico-me constantemente nesse
ponto. Aquilo que acontece é que Saito Sensei é uma pessoa de uma
humildade absolutamente surpreendente. É inegavelmente o maior mestre
de Aikido de todo o Mundo. No Japão, Saito Sensei é uma pessoa
respeitada, é mais respeitada do que qualquer outra dentro do Aikido,
mesmo havendo mestres mais graduados e muito mais antigos do que ele.
Mesmo estes mestres têm um enorme respeito para com Saito Sensei,
respeitam-no acima de tudo. Porque ele é uma pessoa com uma dedicação
e uma humildade incrível, é uma pessoa que não arreda pé dos seus
ideais, do seu comportamento para com O’Sensei; é uma pessoa que não
vai por outros caminhos, tem sempre a mesma linha de conduta. Os outros
mestres sabem que seguiram outros caminhos para poderem harmonizar,
politicamente, com este ou com aquele, ou porque ficaram velhos e têm
que fazer as técnicas desta ou daquela forma, etc. E Sensei não, não
abdica do caminho que O’Sensei lhe ensinou, continua a cem por cento.
Além disso, Sensei tem uma humildade absolutamente fascinante e essa
humildade é tão grande que quando uma pessoa o vê, pela primeira vez,
a pessoa olha e vê uma pessoa absolutamente normal. Quando se vai a
Iwama vê-se Sensei a trabalhar, absorvido naquilo que está a fazer,
porque Sensei quando está a trabalhar aplica-se a cem por cento, com
uma concentração absoluta. Vê-se Sensei a cortar árvores ou a
jardinar, ele próprio faz esse trabalho, não põe as outras pessoas a
fazê-lo. As pessoas passam por ele, a caminho do dojo, e pensam
que é o jardineiro de serviço, só depois é que vêm a descobrir que
aquele é que é o grande mestre. Porque Sensei quando se veste para
trabalhar fá-lo de uma forma humilde, com um chapéu de palha, que às
vezes até está roto, com as suas luvas, ferramentas, etc. E isto
transforma-o numa pessoa absolutamente simples e normal. Eu já o
acompanhei e quando viaja é a mesma coisa, com a maior simplicidade
possível, nada de luxos. Não se põe com ares de superioridade, não
anda com chauffeur,
e ele tem idade e prestígio suficiente para isso, ele próprio guia o
carro. Também a forma como ele se comporta perante as outras pessoas, a
dedicação que ele presta, não só para com os uchideshi,
estudantes residentes, mas também para com os estudantes não
residentes, sotodeshi, e para com a comunidade em geral. É
absolutamente incrível! Tem gostos simples, nada de complicado, não
gosta de rolls-royce,
o que gosta é de árvores, plantas, da natureza. Faz-lhe uma complicação
enorme haver guerras. Por isso, quando fala dessas coisas as pessoas
ficam a olhar para ele e a pensar, “Isto é demasiado simples para ser
de um grande mestre.”
Se as pessoas não conhecerem pessoalmente Saito Sensei, a pessoa
grande que ele é, tal como é no seu dia a dia, nunca vão compreender.
As pessoas até podem ficar admiradas pelo seu nível técnico e pelo
que pode transmitir, mas nunca vi ninguém admirá-lo por aquilo que ele
é. Aquilo que Sensei tem para vir cá para fora é muito mais do que
aquilo que ele alguma vez deu e ele já deu muito, mesmo muito. A
informação que apanhamos de Sensei é o suficiente para estarmos a
estudar durante “séculos”. É inimitável toda a informação
transmitida por Sensei e ele tem muito mais para dar, porque O’Sensei
era um génio. A informação que O’Sensei passou a Saito Sensei é
descomunal e Sensei diz que ainda está a estudar essa informação, mas
as pessoas, no geral, não conseguem ver isso, pensam que é só um
mestre que chegou àquele nível e pronto. Mas não. Sensei é uma
pessoa que pensa Aikido, que estuda Aikido, que vive Aikido e que
constantemente está a estudar o Aikido do seu mestre. As pessoas não
estabelecem a relação entre a humildade dele e o fantástico mestre
que é, os ensinamentos que transmite, a vivência que ele tem, etc. As
pessoas não fazem esse tipo de relações, portanto, é natural que não
compreendam muito bem e fiquem até, às vezes, desapontadas –
“Afinal o que é que esta pessoa tem de especial?” Tem uma vida tão
simples, que fica difícil conceber que seja o maior mestre de Aikido do
mundo.
25- Quais são as ligações de Saito Sensei com o Aikikai?
TC- Saito Sensei é o número um do Aikikai, em termos técnicos. A
última pessoa, antes do Doshu, a realizar a sua demonstração de
Aikido no festival anual de todos os mestres do Aikikai é Saito Sensei,
o que atesta bem a importância que tem dentro desta organização.
Agora, se está activo em termos burocráticos, dentro do Aikikai, isso
não sei, são coisas pessoais dele, não tenho nada a ver com isso. Nem
sequer quero saber! De certeza que tem alguma influência nalgumas decisões
do Aikikai, mas não sei até que ponto. No geral, em decisões que estão
relacionadas com Iwama, com o Templo de Iwama e com realizações de
actividades relacionadas com o Fundador, tem, que eu sei.
Saito Sensei não é funcionário do Aikikai. Nem de ninguém. Saito
Sensei não pertence ao grupo de mestres que têm obrigações de ensino
para com o Aikikai. Sensei foi e é um servidor de O'Sensei. Se as
pessoas o virem a partir desse ponto de vista, então, já podem ter
outra impressão dele.
26- Tem-se discutido muito o facto de Saito Sensei ser o sucessor técnico
de O'Sensei. Muitos praticantes comparam as imagens, preservadas em vídeo,
do Fundador e não conseguem identificar as semelhanças entre ambos,
duvidando assim dessa sucessão. Tem algum comentário?
TC- Eu sempre ouvi as pessoas comentar as semelhanças entre os vários
mestres e O'Sensei. Por exemplo, ouvi dizer que Sugano Sensei tinha um
Aikido muito mexido, por isso, fazia lembrar O'Sensei. Depois ouvi dizer
que Tamura Sensei tinha um Aikido "não sei quê" e também
fazia lembrar O'Sensei. Bom, eu vi estes e outros mestres do Aikikai e
comparei com os vídeos do Fundador e não há o mínimo de semelhanças.
Não há qualquer comparação, porque eles têm aberturas por todo o
lado quando executam as técnicas. Em todo o tipo de técnicas. É claro
que eles são grandes mestres e eu não devia falar assim destes grandes
mestres, mas é o que vejo. E não são só estes que referi, há muitos
mais.
O'Sensei quando praticava não tinha aberturas e mesmo quando as
permitia sabia que as podia fechar, porque ele era um génio das Artes
Marciais. Eu não conheço nenhum génio das Artes Marciais, hoje em
dia, e o mais aproximado que conheço é Saito Sensei. O'Sensei quando
demonstrava para filmes ou quando fazia demonstrações realizava sempre
movimentos fluidos e muito rápidos. Há um dos filmes que mostra
O'Sensei no Hombu Dojo a demonstrar vários movimentos em swariwaza
e são totalmente iguais aos que se fazem em Iwama, mas mais rápidos,
porque O'Sensei era muito rápido a fazer as técnicas. Mas a forma de
praticar, desde o iniciar do nikyo, está lá claramente, assim
como a forma de executar shihonage e muitas outras. Tudo isso se
pode ver no vídeo e é completamente diferente da forma como os outros
mestres as fazem. Um dos problemas é que as pessoas não conhecem a
forma de praticar as técnicas em Iwama.
Mesmo quando O'Sensei praticava formas fluidas fazia-o com um estado de
alerta incrível, porque ele considerava sempre que estava a lidar com
um atacante e um atacante é um atacante, por isso, no final, o
resultado da técnica era fabuloso. Com os outros mestres não é assim,
com eles há sempre uma grande cooperação da parte dos alunos, para
poderem fazer ukemi, por exemplo. Eu sei porque também fui aluno
de outros mestres; fui aluno, salvo seja! - Treinei muito com eles. Por
isso, sei como é.
27- Saito Sensei já tem sucessor que prossiga com a tradição de
Iwama?
TC- Sim já - Hitohiro Saito Sensei é o sucessor do pai.
28- Sucessor natural ou por descendência?
TC- Primeiro é sucessor por descendência, mas acima de tudo é
porque tem a melhor técnica. De todos os mestres que eu tenho visto
Hitohiro Sensei é realmente o melhor e ninguém se aproxima do nível
dele, nem sequer um pouco. Nem podem fantasiar para chegar ao nível
dele! (Risos) Hitohiro Sensei tem uma habilidade natural, talvez por ter
nascido dentro do Aikido. Nasceu em Iwama, viveu sempre com O'Sensei e
depois de O'Sensei ter morrido continuou com o pai. É que Iwama não se
pode ver só como Saito Sensei. Iwama é toda a vivência em si, são
todos os grandes mestres e os alunos de O'Sensei que lá estudaram. As
pessoas que ali praticam convivem com essa gente toda e aprende-se
muito. Hitohiro Sensei é uma dessas pessoas, ele é dos artistas
marciais, principalmente dentro do Aikido, mais estimados que eu conheço.
É uma pessoa que se dedica a cem por cento. Ele prefere, por exemplo, a
convivência dos mestres de Artes Marciais idosos do que das pessoas da
idade dele, embora também conviva com essas pessoas, porque tem uma ânsia
incrível de aprender. Por isso mesmo, e pela facilidade com que aprende
e se dedica, é capaz de conceber logo de imediato. É o melhor de
todos.
Lembro-me que quando fui em 1996, juntamente com o Jorge Feio, convidado
para ir jantar a casa de Hitohiro Sensei, no último dia em que estávamos
em Iwama, mesmo antes de regressar a Portugal, que a primeira coisa que
Hitohiro Sensei fez, quando chegou a casa, foi ver um vídeo de O'Sensei.
Ele está sempre a ver os vídeos de O'Sensei, é por onde ele estuda.
Para além deles consulta constantemente os livros e vídeos de Saito
Sensei, ele estuda permanentemente. Mesmo quando não está com o pai a
treinar e a aprender, está a estudar. Ele estuda até ao mais ínfimo
pormenor, é por isso que tem uma eficácia incrível na técnica e uma
força interior descomunal. Obviamente, que toda esta vivência, em
termos de Aikido, reflecte-se. Não há ninguém como ele. Mesmo que
hajam pessoas que achem que são, não são, as pessoas têm que se
confrontar com os factos!
Eu acho que Hitohiro Sensei é o sucessor natural. Agora, se vai suceder
o pai em termos organizativos ou se vai haver uma organização de
Aikido Tradicional, de Iwama Ryu? Isso duvido, porque não condiz com a
personalidade dele.

Da
esquerda para a direita: Jorge Feio, Prof. Tristão da Cunha, Saito Soke,
Hitohiro Sensei, Nakamura San e esposa. Iwama. 1986.
29- Que diferenças encontrou em ser uchideshi em 1986 e passados dez
anos?
TC- As diferenças são aquelas que eu já falei há pouco. Como
Saito Sensei agora está um pouco mais idoso, talvez esteja mais
introspectivo. Dedica-se um pouco mais às suas coisas, vemo-lo menos
preocupado com certos assuntos. Mesmo assim o sistema continua a ser
rigoroso, os Dai Sempai japoneses que lá estão continuam a
ajudar muito na orientação dos alunos no caminho correcto, para que não
hajam demasiadas baldas. Ao mesmo tempo temos Hitohiro Sensei que está
a substituir o pai e tem um grande controle sobre o que se passa dentro
do dojo, principalmente, em termos técnicos. Ele é muito
exigente com a pureza da técnica, como já não se via há muito. Fora
de Iwama não vejo os mestres a terem tal preocupação. Além disso, é
extremamente sério na atitude que as pessoas têm que ter durante o
treino, não se pode estar a "brincar" durante o treino, tem
que haver uma certa reverência, pois é uma coisa muito séria. A
pessoa pode treinar alegremente, mas tem que ter uma certa seriedade
para com as técnicas de Aikido porque, para Hitohiro Sensei, são técnicas
divinas. Ele tem este sentimento porque o que está a ensinar vem
directamente do Fundador e pode-se sentir isso no ar porque ele sente
essa responsabilidade, não está a ensinar uma criação sua mas de
O'Sensei.
Claro que apesar das muitas coisas boas, não é como antigamente, com
Saito Sensei a toda a hora a meter-nos medo e a andar sempre atrás de nós
para poder ter sempre o controle de tudo. Em 1996 já não senti isso. Não
é que eu esteja a culpar Saito Sensei por estas diferenças, pelo contrário,
Sensei tem todo o direito de estar como está. Os uchideshi é
que são uns grandes mandriões, porque quando lá estão e acabaram o
trabalho que estava destinado para fazer durante o dia, e como já
treinaram de manhã e já tomaram o pequeno almoço, vão dormir,
passear ou telefonar às namoradas que ficaram na Europa ou nos Estados
Unidos. E é isso que fazem durante os dias que lá estão e isto é que
está mal. A culpa é nossa, pois devíamos estar a praticar e a tomar
conta do dojo de O'Sensei, ou ajudar Sensei em tudo o que fosse possível,
mas ninguém se preocupa com isso.
30- Era mais fácil no tempo em que Saito Sensei distribuía ordens e
tarefas?
TC- Sim, era mais fácil se ele mandasse (Risos). Como não dá
ordens, cruza-se os braços, isso mostra realmente que não somos bons
alunos.

Iwama.
Morihiro Saito Soke.
31- Porque regressou a Portugal, em 1986, se se identificou tanto com
a vida em Iwama?
TC- Por falta de dinheiro, claro (Risos). Esse foi o principal
motivo. Em segundo, porque Sensei pediu-me para montar um dojo em
Portugal. Sugeriu que eu pedisse ajuda financeira ao meu pai, mas o meu
pai também não tem assim muito dinheiro. Portanto, não foi possível
montar um dojo só nosso em Portugal. Entretanto, formou-se uma
associação - Aiki-Shuren Dojo mas, nem assim, foi possível montarmos
um dojo. Foi essencialmente a falta de dinheiro que me fez
regressar a Portugal.
32- Porque é que a escola em Portugal tem o mesmo nome do dojo de
O'Sensei em Iwama?
TC- É muito engraçado (Risos). Nós costumávamos massajar Saito
Sensei antes do início de cada aula, Sensei chegava meia hora antes e
íamos para a cozinha velha, a de O'Sensei. Sensei deitava-se no chão e
nós massajávamo-lo, o que servia de aquecimento para ele e para nós
(Risos), porque ficávamos completamente a suar uma vez que Sensei
gostava de ser massajado com vigor. Então, numa dessas vezes, Sensei
começou a sugerir vários nomes para o meu dojo em Portugal e acabou
por escolher Portugal Aiki-Shuren Dojo - "Este é que é o nome
correcto para chamares ao teu dojo em Portugal". O que é engraçado
é que foi através da massagem que ele foi dando nomes para o dojo. Eu
sabia que estava lá escrito, à porta do dojo de Iwama, o mesmo
nome - Aiki-Shuren Dojo, mas não sabia muito bem a importância que
isso tinha. Mais tarde é que fiquei a saber a importância de se chamar
Aiki-Shuren Dojo, pois significa a prática austera da Via do Aiki e ter
esse nome significa muita coisa, significa que se realmente queremos
merecer o nome, temos que praticar de uma certa forma. Se Sensei deu
este nome é porque queria que seguíssemos a Via da prática austera do
Aikido, que é a forma como se pratica lá em Iwama. Nós temos tentado,
mas é difícil, muito difícil mesmo.
33- Então, regressou a Portugal com uma missão?
TC- Sim, Sensei deu-me a missão de ensinar e estabelecer cá em
Portugal o Aikido Tradicional.
34- É essa missão que o mantém preso a Portugal?
TC- Manteve, manteve! (Risos) Sim eu estou aqui em Portugal, agora,
literalmente só para servir Sensei, mais nada. Na altura, tinha cá a
minha avó a viver e também estava a tomar conta dela. Apesar de haver
mais familiares que o podiam fazer, eu sentia que era uma obrigação
minha. Entretanto, a minha avó morreu, os anos passaram e continuo a
ter essa obrigação, apesar da escola já estar formada e de haverem vários
dojo a funcionar. Também já há pessoas que sabem técnica
suficiente para seguirem sozinhas. No fundo, já está tudo feito!
(Risos)
35- Como decorreu a implantação do Aikido em Portugal?
TC- Quando cheguei a Portugal, em 1986, era difícil ensinar Aikido,
porque tinha que se pedir uma autorização à Comissão Directiva das
Artes Marciais liderada pelo Comandante Fiadeiro. Era preciso ter uma
licença para se poder ensinar Aikido. Para isso fiz um teste, com o
Professor Jean-Marc Duclos, para ver se eu sabia Aikido suficiente. Como
ele viu que sim, foi-me passada a licença e que ainda hoje tenho em
casa, algures.
Comecei a dar aulas no Instituto Superior Técnico, onde tínhamos
apenas quatro tapetes e a fotografia de O'Sensei ficava em cima de um
daqueles cavalos de ginástica. E era assim que treinávamos, durante
mais ou menos dois anos. Chegaram a estar lá onze pessoas. Comecei também
a ensinar no Ginásio Ludance, em Carcavelos, mas as condições também
eram mínimas e como era complicado andar de um lado para o outro,
acabei por sair de lá. Entretanto, também comecei a ensinar no Ginásio
da Faculdade de Ciências de Lisboa, onde ainda estou hoje em dia,
tendo-se tornado no dojo principal da escola.

Prof.
Tristão da Cunha, numa das primeiras demonstrações de Aikido de Iwama
em Portugal
36-
Ainda há alunos dessa época inicial a praticarem?
TC-
Sim, há um – o Luís Pires, que começou no Técnico comigo e que
hoje treina em Carcavelos, no Ludance. Havia um outro, que me acompanhou
durante bastante tempo, embora já não esteja a praticar agora, o Pedro
Ferreira. Mas o núcleo mais antigo de alunos, actualmente, é aquele
que começou na Faculdade de Ciências.
37-
Quando é que fez a opção de se tornar profissional de Aikido?
Considera esta a única opção para quem está interessado num estudo sério
do Aikido?
TC-
Essa coisa de se ser profissional de Aikido! (Risos) Eu não gosto dessa
definição de profissional de Aikido. Para mim, um profissional é uma
pessoa que tem vários dojo, onde ensina e recebe um ordenado
nessa base. É claro que para se ser profissional de qualquer coisa tem
que se ter alguns conhecimentos, para poder transmitir, é assim em
qualquer ramo. Se não souber, inventa ou estuda, faz uma vénia aqui e
ali e lá se vai tornando num profissional. Isso é o que eu considero
um profissional. Não é necessariamente um charlatão, mas um
profissional de Artes Marciais é uma coisa muito estranha (Risos),
assim como um profissional de qualquer arte. Um profissional de
pintura?! Isto não existe, há é artistas; há artistas que as pessoas
gostam e outros não. E o Aikido é uma arte também, portanto, há
artistas de Aikido. Uma pessoa pode é ser um professor de arte, porque
ganha a ensinar a arte, para que outras pessoas se tornem artistas, mas
eu não me considero dessa forma. Eu considero-me um aluno de Saito
Sensei. Agora, se a associação me der dinheiro para eu poder ir
ensinar em vários locais é uma coisa completamente diferente - isso são
ajudas de custo (Risos). Aliás, ajudas de custo miseráveis (Risos),
mas é o que são. Então, com esse dinheiro, vou ao Alentejo ensinar e
a outros locais e mantenho assim vários dojo. A Associação
Aiki-Shuren Dojo tem vários dojo, mas cada qual tem o seu próprio
professor que tem a mesma obrigação que eu, portanto não me posso
considerar profissional de Aikido.
Uma vez Saito Sensei disse qualquer coisa deste género - se a pessoa
ensinar Aikido é estúpido e se não ensinar também o é (Risos).
Porquê? Porque se depender economicamente do Aikido é estúpido, uma
vez que não vai a lado nenhum, é muito difícil tornar-se profissional
e ganhar muito dinheiro com o Aikido. Mas se isso acontecer, a pessoa
começa a relaxar e praticar o Aikido como arte deixa de ser a coisa
mais importante. Começa a dedicar-se mais à política, à organização
em termos federativos ou associativos, começa estar preocupado em
aumentar o número de dojo e em ter mais alunos e começa a ser
importante ter cargos, etc. Tudo isso é uma consequência natural. Por
isso, mais uma vez, devemos olhar para Saito Sensei que é o maior
mestre do mundo e não tem cargos em parte nenhuma. É somente o Reitor
da Escola de Iwama. Mesmo depois de se formarem organizações ligadas a
ele, como Iwama Ryu, Takemusu, e outras, organizações que vieram de
alunos de Saito Sensei, mas ele continua a não pertencer a qualquer
uma. Faz parte do Aikikai, como sempre fez, fundado por O’Sensei e
mais nada. Portanto, alguém que se dedique a estas coisas já está a
perder muitas outras. No geral, é preciso ter muita força e uma
disciplina férrea para se poder dedicar a uma arte, receber dinheiro
por isso e poder continuar, mesmo assim, a treinar como se fosse apenas
um aikidoca, interessado no seu treino pessoal.
Por outro lado, também é estúpido uma pessoa não ensinar Aikido,
porque quando a pessoa é profissional pode dedicar-se a tempo inteiro
à arte, não se pode desligar e isso é uma vantagem. Também pode
acontecer que a pessoa, quando não ensina, só pratique e apenas se
preocupe com o seu treino pessoal, esquecendo coisas importantes como
divulgar a arte e ajudar o mestre o expandir o Aikido, como era um dos
desejos de O’Sensei. Uma das obrigações de um professor é a divulgação
da arte. Só treinando, a pessoa também faz a sua pequena parte pela
arte, mas o professor tem obrigação de fazer mais, de a expandir.
38-
Como surgiu a formação da Associação Aiki-Shuren Dojo?
TC-
Eu formei a associação para salvaguardar o nome Aiki-Shuren Dojo.
Quando cheguei a Portugal apercebi-me rapidamente que havia muito pouco
conhecimento sobre Aikido. Apesar de já cá haverem mestres e graduações
elevadas a verdade é que, em termos concretos, sabiam muito pouco de
Aikido. Haviam uma série de termos e palavras, já para não falar de técnicas
e princípios, que estes mestres desconheciam por completo, como buki
waza ou ki-no-nagare. Até as palavras que conheciam eram
pronunciadas de forma errada, por total desconhecimento da língua
japonesa. Ainda hoje há quem diga coisas erradas, por exemplo kihon,
em que em vez de pronunciarem “quiHon”, com o “h” aspirado,
dizem “quion”. Mesmo os nomes dos mestres são mal ditos, como “Saítu”
em vez de “Saitô”, por exemplo. Enfim, os conhecimentos eram
poucos.
Comecei também a ver que, talvez por isso, tinham uma certa necessidade
de obter todas as pequenas informações que conseguissem. Queriam
aprender, é verdade, mas também queriam logo dizer que só eles é que
sabiam aquilo, que só eles é que tinham aprendido, sabe-se lá onde,
porque alguns nem tinham mestres e os que tinham atribuíam ao mestre
esses conhecimentos. Então vi que corria o perigo de me tirarem o nome
Aiki-Shuren Dojo. Mal alguém soubesse que o nome do dojo de O’Sensei
era esse, imediatamente, iria apropriar-se dele e eu é que “ficava a
ver navios”. Por isso, para conservar o nome fiz a associação.
Infelizmente, a combinação dos nomes, se formos a olhar ao sentido, não
tem muita lógica, mas pronto por questões legais fiz isso.
Começámos a desenvolver várias iniciativas ao longo do tempo, como os
estágios. Penso que foi por influência de pessoas como o José António
Carvalho ou o Hugo Ribeiro. Penso que houve várias pessoas que me
convenceram a dar estágios, o que é uma coisa muito boa, porque assim
os alunos dos vários dojo podem reunir-se e ficar a conhecer-se.
Podem ainda comparar o seu nível de desenvolvimento com os outros, o
que dá sempre alguma referência para a evolução.

Faculdade
de Ciências de Lisboa. Prof. Tristão da Cunha. Início do Aikido de
Iwama em Portugal.
No princípio, não haviam estágios, só aulas, eu só ensinava, mais
nada, nem sequer haviam graduações, porque nem sequer havia
necessidade disso. Nem há ainda grande necessidade, porque quando uma
pessoa se dedica mesmo ao estudo da arte não precisa de graduações, o
que interessa é treinar e dedicar-se à arte. O que acontece hoje é
que as pessoas dedicam-se pouco à arte e, por isso, o professor tem que
aproveitar esses poucos momentos e fazer com que alguma coisa fique lá
dentro. Nesse sentido, a graduação é muito útil. É das tais coisas
- ser necessário por um lado e não ser por outro.
Enquanto organização com alguma abrangência, talvez o sejamos só há
quatro anos. O que foi conseguido não foi só graças a mim, mas a
todos aqueles que me rodearam e que têm bases para trabalhar de uma
forma mais metódica e sistemática. Pois eu não tenho muito, o meu
interesse é apenas relativo à prática e ao ensino. A verdade é que
passámos a perder muito mais tempo, desde que somos uma organização
com outras proporções, em reuniões e em decisões. Mas pronto, também
reconheço que é necessário para preservar o Aikido.
Os projectos com que me envolvi, devido à Associação, foram sempre em
prol da expansão do Aikido que eu considero ser o único correcto.
Quando comecei a dar estágios, em Évora, lembro-me que senti mesmo a
necessidade de o fazer, porque tínhamos que passar a técnica que nós
aprendemos. Aqui em Lisboa, as pessoas tinham mais possibilidades de ter
acesso à informação. No primeiro estágio em Évora estávamos lá três
uchideshi de Iwama, eu, o João Gião e a mulher dele, Christian,
e só haviam dez praticantes, por isso, aprenderam muito mais depressa,
porque eu ensinava uma técnica e imediatamente era praticada sempre com
alguém que já a sabia. Foi muito bom, lembro-me perfeitamente desse
estágio que decorreu num dojo que já fechou.

Faculdade
de Ciências de Lisboa. Prof. Tristão da Cunha. Início do Aikido de
Iwama em Portugal.
39-
Qual é o estado actual da escola? Sente que está pronta para seguir o
seu caminho, sem depender do seu líder?
TC- Sim, está pronta, porque
as pessoas que vão ficar a substituir-me são boas, por isso mesmo é
que está pronta. Se eu me fosse embora, a escola podia continuar a
sobreviver porque as pessoas que vão ficar à frente dela são
realmente muito boas.

Lisboa.
Dojo da Faculdade de Ciências de Lisboa. Prof. Tristão da Cunha e José
António Carvalho.
40-
O estágio internacional anual é o principal evento organizado pela
Associação. Como é realizar um estágio internacional, por ano, sem
qualquer ajuda financeira?
TC-
(Risos) Que o diga o José António e o Hugo Ribeiro! O que se passa é
que até ao último momento, até pagar ao mestre que nos visita, é um
sufoco. E mesmo depois de lhe pagar, temos que andar à procura de mais
dinheiro para pagar às pessoas que foram dando dinheiro para pagar isto
ou aquilo. É o terror económico (Risos)! É horrível, mas é um bom
treino, porque as pessoas têm que se esforçar e dedicar-se a todos os
níveis, toda a gente faz sacrifícios pessoais mas, neste particular, a
pessoa que mais se esforça é o José António, pois é o único
que mantém o controle de tudo.
41-
O ponto mais alto destes estágios foi a visita de Saito Sensei a
Portugal, em 1992?
TC- Sim, definitivamente foi. Foi o
primeiro e único estágio que Saito Sensei realizou em Portugal. Nós
até o recebemos pessimamente, cada vez que penso nisso... (Risos).
Mas pronto, fizemos tudo aquilo que podíamos dentro das possibilidades
económicas que tínhamos, que eram nulas. Hoje em dia estamos um pouco
melhor, derivado ao facto de termos mais dojo e, por isso, mais
praticantes. Na altura não tínhamos quase ninguém, éramos para aí
umas dez ou quinze pessoas e o resto dos praticantes que vieram ao estágio
eram pessoas de outras organizações. Na verdade, foram essas pessoas
que suportaram o estágio, pela sua presença, porque nós não tínhamos
condições, sozinhos, de o fazer. Houve também pessoas que entraram
com bastante dinheiro pessoal, como o Pedro Maia que, creio, deu muito
dinheiro. Assim, conseguimos pagar a Sensei e as viagens.

1992.
Lisboa. Estágio de Morihiro Saito Soke em Portugal. Foto de grupo.
42-
Que praticantes de outras escolas compareceram no estágio?
TC-
Penso que foram essencialmente pessoas da A.P.A.D.A., ligadas ao Mestre
Stobbaerts, que tinham um estilo de Aikido completamente diferente do
nosso e, por isso, talvez estivessem um pouco perdidos. Do Aikikai não
veio ninguém, não..., apareceu uma pessoa, se bem me lembro. O que foi
bastante estranho, pois não se vê isso em país nenhum. Onde quer que
Saito Sensei vá, há sempre dezenas de praticantes do Aikikai que
frequentam o estágio, porque Sensei é o top do Aikikai. Já na altura
o era, porque era o Reitor da Escola de Iwama, a escola de O’Sensei.
Nessa época Sensei já era reconhecido como a pessoa que ensinava o
estilo original do Aikido de O’Sensei e afinal de contas não
houve ninguém que aparecesse. Isto, mesmo depois de Tamura Sensei ter
dito aos seus alunos, como o Prof. Luís Antunes e os outros, para irem
ao seu estágio. Tamura Sensei era o líder do Aikikai em Portugal. Eu
ouvi Tamura Sensei dizer expressamente para eles irem ao estágio, eu
estava lá quando ele disse isso, em frente a todos do Aikikai. Disse
ainda que deviam ir porque Saito Sensei era o melhor mestre. Mas ninguém
foi, não seguiram as indicações de Tamura Sensei (Risos). O Aikikai
em Portugal sempre foi um pouco especial. Creio que só foi mesmo
essa pessoa que referi há pouco, mas não sei se ficou muito contente
porque nunca mais a vi, é que o nosso estilo é muito diferente do
resto dos mestres do Aikikai e parece que ninguém acredita mesmo nisso.
Enfim, mas foi terrível economicamente. Ao mesmo tempo tivemos o privilégio
de ter Saito Sensei connosco, para usufruir do seu ensinamento e
companhia, durante cinco dias, que foram absolutamente fantásticos. A
partir daí foi a andar em frente, até hoje.
43-
Pensa que é por falta de informação que em Portugal ainda não se
reconhece o mérito especial de Saito Sensei?
TC-
Sim, basicamente, é por falta de informação, tanto dos praticantes
portugueses, como até dos seus mestres. As próprias organizações impõem
um grande bloqueio da informação correcta, relativamente aos seus
praticantes e seleccionam o tipo de informação que querem divulgar.
Falo da informação histórica e não só. Toda a informação que o
Stanley Pranin tem conseguido divulgar cá para fora é da máxima
importância. Porque Saito Sensei afirmava constantemente que era assim
que fazia O’Sensei e não se preocupava em apresentar provas, porque
ele sabia que era assim e pronto! Foi o Stanley Pranin que descobriu as
provas e confirmou que o que Saito Sensei diz é verdade e apresentou
factos reais, com provas e datas etc. Sensei nunca se preocupou muito
com essas coisas e fica irritado por as pessoas não estarem a fazer o
Aikido do Fundador, porque o Aikido do Fundador é que é o Aikido, o
resto não é, o resto são estilos que as pessoas inventam. Então, por
causa disso mesmo é que é importante praticar com Saito Sensei.

Lisboa.
Dojo da Faculdade de Ciências de Lisboa. Prof. Tristão da Cunha.
44-
O segundo ponto de viragem na escola foi a presença de Hitohiro Saito
Sensei em Portugal, em 1997?
TC-
Sim, sim. O filho de Saito Sensei é uma pessoa ainda muito jovial e enérgica,
faz-me lembrar o pai quando eu o conheci em 1986. Quando nós o
convidamos a vir a Portugal, pela primeira vez, em 1997, as coisas já
eram completamente diferentes porque nós já tínhamos uma Associação
com vários dojo e, portanto, pudemos desfrutar melhor da sua
presença. Já não tínhamos grandes preocupações porque éramos uma
escola com alguma dimensão, tivemos só dos praticantes de Iwama Ryu
mais de cem pessoas; já sabíamos muito mais sobre como receber um
grande mestre devido aos vários estágios que organizámos e a que
fomos no estrangeiro, muito mais pessoas tinham ido a Iwama, entretanto,
havia pelo menos uma pessoa por ano que lá ia. Todos cooperaram para
ajudar os colegas na organização, portanto, pudemos aprender muito
mais de Hitohiro Sensei.

1997.
Lisboa. Estágio internacional com Hitohiro Saito Sensei. Foto de grupo.
Hitohiro
Sensei é como se fosse, também, nosso mestre, porque é a ligação
directa entre O’Sensei e Saito Sensei. Para além de ser o filho de
Saito Sensei, é um grande mestre e daí que se tenha criado uma ligação
tão forte, mais do que tinha havido até essa altura. E esta nossa relação
irá ser cada vez mais profunda.

2000.
Vila Nova de Sto. André. Momento de descontracção. Da esquerda para a
direita: Sonoko Tanaka San, Prof. Daniel Toutain, Hitohiro Sensei, Prof.
Tristão, Hugo Ribeiro e Ricardo Silva.
45-
Considera que o Aikido é uma arte capaz de modificar a personalidade de
uma pessoa?
TC- Isso da personalidade é uma
coisa de psiquiatras e psicólogos, uns dizem que sim, outros que não
é possível alterar a personalidade a partir de uma certa idade. O
Aikido é um Budo e este modifica tudo, o Budo pode modificar o mundo
inteiro, portanto, também altera o interior das pessoas. A mim
modificou-me completamente! Eu era uma pessoa reservada, tímida,
tinha vergonha com tudo, ainda hoje sou um pouco envergonhado, mas
tornei-me descarado (Risos). O Aikido obrigou-me naturalmente a ser
assim. Comparado com o que era antigamente, já não sou a mesma pessoa,
não tem nada a ver. É claro que algumas coisas continuam a ser iguais,
mas a forma como me relaciono com a sociedade e com as pessoas que me
rodeiam modificou-se completamente. Porque eu sei que isso aconteceu
comigo, acredito que o Aikido tem essa capacidade de modificar. É mesmo
uma arte que está concebida para isso, para as pessoas integrarem a
sociedade e a poderem servir, exactamente como O’Sensei queria e disse
a Saito Sensei quando ele começou a praticar Aikido.

2001.
Barragem de Campilhas. Estágio Nacional dirigido pelo Prof. Tristão da
Cunha.
46-
Quais os princípios fundamentais, na sua opinião, que caracterizam o
Aikido, como reigi, giri, kiai, awase, etc?
TC-
Tudo é importante! Acho que uma pessoa não pode dar mais valor a uma
coisa que a outra, porque tudo está ligado. Awase é das coisas
mais importantes que existem. Se a pessoa consegue fazer awase,
então, consegue sincronizar com tudo o que está à sua volta. Ao mesmo
tempo, se a pessoa não consegue fazer kiai como deve ser, como
é que vai conseguir fazer awase com alguém? Um tem a ver com o
outro, definitivamente. O reigi tem a ver com awase, se a
pessoa não tiver um awase absolutamente perfeito com o seu
mestre, como é que alguma vez o pode servir?
Quando Saito Sensei foi visitar, pela primeira vez, O’Sensei a Iwama
era ainda um jovem. Foi recebido no dojo, numa sala pequena, junto à
sala dos tapetes – rokujo - que ainda hoje existe. No
momento em que O’Sensei se ia sentar na sala, para falar com o jovem
Saito, surge Tadashi Abe a colocar uma almofada por baixo de O’Sensei,
mesmo onde ele se ia sentar. O awase, absolutamente fenomenal, de
Tadashi Abe deixou o jovem Saito, mesmo sendo japonês, fascinado. A
sincronização com que o fez foi realmente surpreendente. Saito Sensei
ficou profundamente impressionado com a rapidez e segurança com que
este discípulo servia O’Sensei. Portanto awase é muito
importante em tudo o que diz respeito a Iwama e lá aprendemos
exactamente isso com Sensei. Não é só estar a fazer awase
quando se está a receber a técnica e, logo a seguir, esquecer-se a
sincronização com tudo o resto?! Etiqueta, reigi, sem awase
não serve para nada. De que serve ter um bom awase a praticar
com armas se depois, quando acaba, vira as costas ao adversário. É
preciso ter uns certos cuidados, etiqueta. Há uma lógica marcial por
detrás da etiqueta e é importante aprendê-la.
A melhor forma, aliás, a única forma de aprender todos estes princípios
é servir Saito Sensei, porque ele passou 23 anos a aprender estas
coisas com O’Sensei, não foi só técnica. Ele não podia relaxar nem
um pouco, como os outros alunos podiam, quando o Fundador não estava
presente. Saito Sensei, mesmo na ausência do seu mestre, mantinha todo
o comportamento como se ele estivesse presente, porque a sua função
era representar O’Sensei. Até hoje, Saito Sensei nunca relaxou. Por
isso é tão difícil servir Saito Sensei e só ele sabe o que deve ter
passado quando O’Sensei era vivo. Basta olharmos para as descrições
que todos os mestres fazem das viagens de uns diazitos com o Fundador,
para compreendermos o que devem ter sido 23 anos, com O’Sensei sempre
“em cima” dele. A coisa mais importante é servir Saito Sensei, caso
contrário, não se vai compreender nada de Aikido. A partir daí vem
tudo o resto.

2000.
Dojo da Faculdade de Ciências de Lisboa. Estágio Nacional. Prof. Tristão
da Cunha.
47-
O que distingue o Aikido de Iwama dos outros, que já praticou?
TC-
O Aikido de Iwama é o Aikido, é puro. Os outros são formas de Aikido,
variações, que surgiram a partir de certas pessoas que decidiram criar
estes estilos onde dizem que é a sua personalidade a influenciar a técnica
e coisas do género. Se uma pessoa cria uma coisa chamada Ketchup,
chama-se Ketchup! (Risos) Se vem outra e põe outros ingredientes, terá
que lhe dar outro nome, mesmo que seja parecida, porque já não é o
original. Se põe outros ingredientes ou se muda as quantidades e a
forma de fazer já não é Ketchup, é outra coisa qualquer. Ketchup é
Ketchup, porque foi inventado por determinada pessoa, naquela altura e
daquela forma, com aqueles ingredientes específicos, e não outros.
Assim como um bolo de chocolate tem que ter chocolate, senão não é um
bolo de chocolate é um outro bolo. Com o Aikido é exactamente a mesma
coisa. O Aikido foi criado com um propósito muito especifico, com técnicas
muito especificas, por uma pessoa chamada Morihei Ueshiba. Demorou tempo
a ser criado e eu acho que de uma certa forma ainda está a ser criado,
agora por Saito Sensei, porque é a única pessoa que tem a informação
suficiente para poder codificar e apresentar a arte do Fundador. É isto
que é o Aikido de Iwama, estamos a receber essa pureza directamente de
O’Sensei, através de Saito Sensei que é a única pessoa que pode
realmente fazer isso, pelas razões que já enunciei.
Agora, se os outros criaram outros tipos de estilos, eu não considero
isso Aikido. Posso dizer, por educação, quando falo com outras pessoas
e outros mestres de outras escolas como sendo tudo Aikido, mas
sinceramente, dentro de mim, não consigo considerar o que fazem como
sendo Aikido. Por exemplo, uma técnica - iriminage - em que quem
faz mais força é o uke, correndo atrás de quem está a fazer a
técnica, eu não posso considerar como uma técnica de Aikido, porque irimi
significa entrar para projectar e não andar com a pessoa às voltas até
ela se deixar cair. Há mestres que não percebem a lógica disso, nem
sequer a razão de ser do nome da técnica. E depois é preciso praticar
o suficiente, dentro do que é correcto, para se compreender as implicações
espirituais, tanto de quem executa a técnica, como de quem a recebe. Se
a pessoa não treina o iriminage como deve ser, em toda a sua
pureza, nunca chegará lá, não consegue reproduzir essa
espiritualidade e acaba por fazer outra coisa qualquer. Logo, está a
fazer outra coisa qualquer e não Aikido, que pode ser muito boa para a
saúde, para o espírito, etc., mas Aikido é que não é.
Até hoje, nunca conheci ninguém que tivesse ido a um estágio de
Aikido de Iwama e, por mais alta que fosse a graduação, não se
tivesse sentido completamente perdido, porque é mesmo diferente. Em
tudo, mesmo naquilo que parece semelhante. Podem não gostar, preferirem
as formas derivadas de Aikido, mas nunca saem com a sensação que
estiveram num estágio qualquer. O mesmo já não se passa dentro do
sistema Aikikai, por exemplo, em que com mais uma variação ou outra,
dependendo do mestre, nunca nos sentimos perdidos ou temos dificuldade
em fazer as técnicas porque é tudo muito parecido. É difícil que as
pessoas compreendam que praticar com outros mestres não nos ensina
grande coisa, porque Iwama é tão específico e diferente que pouco
podemos aprender de outros lados. É como se estudássemos artes
diferentes.

Prof.
Tristão da Cunha ensinando Kentaijo, num estágio nacional, no Dojo da
Faculdade de Ciências de Lisboa.
48-
O praticante de Aikido tem que desenvolver esforços para se harmonizar
com o atacante e, por outro lado, o atacante também tem que se
harmonizar
de
forma a receber a técnica com o menor dano físico possível. Parece
uma contradição. Qual é o limite entre a harmonização e a colaboração
no Aikido?
TC-
Não há limite nenhum, tem sempre que haver colaboração. O Aikido é
um Budo e sendo um Budo puro é extremamente perigoso praticar na sua
forma real, portanto, tem que haver sempre uma colaboração, porque senão
pelo menos uma das pessoas teria que ficar extremamente ferida ou pior
até. Uma coisa assim não pode acontecer, mas para isso, tem que haver
sempre uma certa colaboração, senão duas pessoas não podem praticar.
Com a prática, talvez esta colaboração possa ir diminuindo a nível físico,
mas vai aumentando a nível espiritual. Na verdade, as pessoas deviam
lutar para poderem tornar a técnica mais real, mais próxima da
verdade, isto é, torná-la na sua forma pura que é mortal, ou pelo
menos muito violenta. Contudo, à medida que o nível dos praticantes
vai evoluindo, desde que esse nível seja igual entre ambos, deve-se
treinar de uma forma cada vez mais sincera. Se um dos parceiros tiver um
nível inferior esse tipo de treino pode-se tornar muito perigoso para
ele. Quando dois praticantes de alto nível treinam têm que estar
cientes do perigo do treino e das consequências de cada técnica. O
executante da técnica tem que saber quando deve parar, antes que aconteça
um acidente grave. A colaboração inteligente é sempre preciosa.
Parece um pouco estranho dizer que na Arte Marcial tem haver colaboração,
mas é assim mesmo. Se conseguíssemos criar uma arte onde houvessem
acidentes, porque fizemos uma técnica pura, então, essa técnica
deixava de ser Aikido.
49-
Dentro em breve vai voltar para Iwama, a convite de Hitohiro Sensei, mas
desta vez prevê-se que por vários anos. Quais são as suas
perspectivas, uma vez que agora já não vai como um principiante, mas
sim com um estatuto reconhecido em toda a comunidade ligada a Iwama e não
só?
TC-
Não penso nesses termos. Uma pessoa quando vai para Iwama tem que estar
sempre a pensar que vai como um novato, não passa de um simples
principiante. Se eu for a pensar que vou como líder em Portugal, que
sou Tristão Sensei, que sou um quarto dan de Iwama, que já
pratico há muitos anos, então, nem vale a pena ir, porque aqui em
Portugal é que sou um grande mestre. Eu vou mesmo como um principiante
e quero esforçar-me por sê-lo. É verdade que não posso deixar de
dizer que sou um quarto dan e que sou o líder de Iwama em
Portugal, porque todas as pessoas me vêem assim, quer em Portugal, quer
fora e até Saito Sensei me vê como o líder por Portugal. Mas não é
essa a minha realidade, a minha realidade é que sou apenas um aluno de
Saito Sensei.

Itália. Hitohiro Saito Sensei.
Eu
vou para Iwama para aprender, aliás, para continuar a aprender e apesar
de já andar a estudar há bastante tempo a verdade é que o meu
sentimento interno é de um principiante. Quando lá chegar vou olhar
para Sensei e vou ficar de "boca aberta", vou ficar parvo e
pensar no que é que eu tenho andado a fazer estes anos todos. Por isso,
vou ter que rever tudo do princípio. É claro que vai ser mais fácil,
porque já vimos muitas coisas entretanto e vou-me lembrar de
ensinamentos do passado que já estavam esquecidos, mas sobretudo sei
que me vou questionar porque estive longe de Iwama tanto tempo.

2000.
Vila Nova de Sto. André. Hitohiro Saito Sensei.
50-
Como pensa que vão ser as coisas em Portugal quando for para Iwama?
TC-
Não faço a mínima ideia. Como é óbvio, a escola sempre foi
influenciada pela minha personalidade, mas nos últimos anos tenho
deixado de ser um ditador (Risos) e tenho deixado as pessoas actuarem
mais com o seu próprio modo de ser, com as suas qualidades e da forma
como acreditam que devem fazer as coisas. Senti a certa altura que isso
era absolutamente necessário, porque já sabia que acabava por me ir
embora, mais cedo ou mais tarde. Por exigências da conjuntura política
governamental actual (Risos), talvez venha a ser necessário que o
Aiki-Shuren Dojo - os que ficarem cá terão de decidir isso - enverede
por caminhos políticos que são aborrecidos. Felizmente eu não vou ter
que fazer esse trabalho (Risos). Caberá à escola fazê-lo. Talvez essa
seja a principal diferença quando me for embora.
Se as pessoas que estão cá continuarem a ir a Iwama continuam
exactamente a seguir os ensinamentos de Saito Sensei, que é a pessoa
mais importante, logo seguido de Hitohiro Sensei. Como eu vou lá estar,
se vir um ou outro português que não tem esse sentimento, nunca mais
vou dar licença para um português lá ir (Risos). E quando Sensei me
perguntar, porque o vai fazer, digo que não merecem (Risos). Por isso,
de certa forma seja bom eu estar lá, porque vou poder fazer força para
que haja o máximo de austeridade e exigência com o treino pessoal dos
portugueses. Estes vão a Iwama mesmo para aprender Aikido e Sensei e
Hitohiro Sensei sabem que podem treinar os portugueses com o máximo de
severidade, porque é isso que queremos, porque nós estamos habituados
e podemos aguentar com esse tipo de treino e não vamos ficar ofendidos,
por isto ou aquilo.
O problema é a politiquice das associações de Artes Marciais, que são
obrigadas a modificar-se. Uma pessoa agora é obrigada a ter licenças e
seguros para tudo. Quer dizer, uma pessoa vai aprender uma Arte Marcial
para aprender a ter segurança na vida e precisa de um seguro de vida
(Risos). É ridículo. Depois tem que ter uma licença para ensinar. Mas
ensinar o quê? Ninguém está aqui para ensinar, só estamos a
praticar. Agora, se eu fosse um grande mestre e tivesse um grande negócio,
então, está bem, o Governo podia preocupar-se em saber se eu, ou a
Associação, pago ou não impostos, ou se ando a receber dinheiro às
escondidas. Essas é que devem ser as preocupações do Governo. As
pessoas praticam porque gostam de praticar e estas novas regras vão
estragar tudo, aliás, já estão a estragar. Estas ideias começaram na
Europa e ainda bem que só agora chegaram a Portugal. Felizmente em
Iwama ainda estamos longe disso, podemos concentrar-nos apenas no treino
puro. Ali as pessoas poderão relaxar e esquecer as politiquices, o
treino é a única coisa que interessa.
As pessoas que estão cá em Portugal terão
que seguir o Hugo Ribeiro que é muito bom, eu sei que é porque fui eu
que o treinei (Risos), assim como o José António. Se Sensei não
tivesse também tomado conta deles e não tivesse atingido a vida
deles profundamente, então, teria que fechar o Aiki Shuren Dojo e dizer
- Eu vou-me embora e vocês governem-se.
51-
Muitas pessoas consideram estranho o facto de nesta escola não haver
paragens dos treinos para férias, Natal, Dia de Ano Novo, etc. Há
algum fundamento para esta prática contínua?
TC- Fundamento?! É preciso algum
fundamento? É assim mesmo, o Budo tem que ser praticado todos os dias,
é o dia a dia, não pode haver férias. Como é que uma pessoa vai
fazer férias do seu aperfeiçoamento pessoal? Quer dizer, aos feriados
e em Agosto, porque são férias, não há aperfeiçoamento pessoal?!
Isso não faz qualquer sentido, a pessoa desenvolve um certo gosto pela
arte e sente que tem sempre que estar ligado, é um processo que não
tem paragens. Se deixar de praticar perde-se sempre qualquer coisa, a
pessoa sabe que tem que ficar forte, física e espiritualmente, e que
tem que ajudar os outros a serem pessoas mais dinâmicas e a atingirem
os seus objectivo. No Budo nunca se descansa.

2000.
Vila Nova de Sto. André. Prof. Tristão da Cunha dando instruções
para a preparação do estágio internacional.
52-
Como decorre uma aula no Aiki-Shuren Dojo?
TC-
Primeiro que tudo, eu tento dar aulas exactamente como se passa em Iwama.
De manhã, pelas seis e qualquer coisa, e começo a limpeza. Entretanto,
os alunos vão chegando. A aula começa com a saudação tradicional de
Iwama e inicia-se a prática. Demonstro sempre as técnicas, com algumas
explicações e os alunos tentam seguir as minhas indicações. Temos
dois tipos de aulas, as de buki waza, técnicas de armas, e taijutsu,
técnicas sem armas. As aulas sem armas começam sempre com algum treino
de armas, que é a única coisa que difere de Iwama. Fazemos sempre no
início algo de armas que esteja relacionado com as técnicas que iremos
estudar ao longo da aula. Eu passei a fazer isso porque em Portugal
temos menos tempo para praticar armas, apesar de sermos a escola que
mais treina armas. Em Iwama, todas as manhãs há treino de armas e à
tarde sem armas. O resto da aula de taijutsu decorre da seguinte
forma, começamos sempre com as técnicas mais básicas que O’Sensei
fazia em todas as aulas – tai-no-henko e morote dori
kokyu-ho. Em seguida fazemos as técnicas por nível crescente de
complexidade, mas sempre com lógica, em que estudamos as várias relações,
variações, etc. Sempre que existem, executamos as mesmas técnicas em swari
waza e tachi waza. No final estudamos o swari waza
kokyu-ho. Enfim, utilizamos o mesmo modelo que O’Sensei utilizava
em Iwama. Com o buki waza fazemos o mesmo. Primeiro, sempre,
executamos suburi, e depois técnicas com duas pessoas ou mais.
Cada praticante treina as técnicas dentro do seu nível, mas é a mesma
para todos, o espírito é a única coisa que fica diferente,
fica-se mais agressivo, para além obviamente da habilidade de execução.
No final de todas as aulas, depois da saudação, voltamos a fazer a
limpeza do dojo, uma vez que o estivemos a sujar durante o
treino. E pronto, é assim em todos os dojo da escola.
53-
Como acha que as outras escolas vêem o Portugal Aiki-Shuren Dojo ?
TC-
Creio que vêem com aspectos bons e maus, talvez. Em geral, penso que as
pessoas olham para o Aiki-Shuren Dojo de Portugal como sendo o Tristão,
que ele é que manda e se se for embora vai tudo por água abaixo, etc.
(Risos) É claro que as pessoas que pensam isso não nos conhecem
minimamente, obviamente que não vêm às nossas aulas, nem participam
nas nossas actividades, portanto, não podem perceber. Durante os estágios
internacionais apenas dirijo, quanto muito tenho que dar algumas instruções,
apesar de já todos saberem o que é preciso fazer do princípio ao fim
com todos os pormenores, porque um estágio está cheio de detalhes. O
que acontece é que por vezes é necessário dar um pequeno incentivo
para as pessoas não descurarem certos aspectos ou para fazerem as suas
tarefas mais rapidamente. Portanto, para dizer a verdade, praticamente
limito-me apenas a dar aulas e pouco mais, o tempo em que eu tinha de
fazer tudo já lá vai.
Outro aspecto, e também por falta de informação técnica e histórica,
as pessoas olham para nós como se nós fossemos uns vaidosos porque
temos a mania que só nós é que fazemos o Aikido do Fundador, quando o
Aikido, pensam eles, é muito maior que isso e que cada um tem a sua própria
forma de Aikido, ... Isso é tudo por falta de informação, uma vez
mais. Tenho uma certa pena destas pessoas porque estão enganadas e
convencem-se que aquilo que estão a fazer é que é a verdade. Isso é
uma pena.
Também há aquelas pessoas que nos admiram, por termos conseguido, em tão
pouco tempo, atingir um desenvolvimento da escola que muitos deles só
agora estão a atingir, ao fim de muito mais tempo. Temos já um grande
número de praticantes, dos que praticam efectivamente e não dos que
aparecem só uma vez por outra. E esse é um ponto em que sou rigoroso,
as pessoas têm que vir ao treino, se se inscrevem é para aprender. Se
só querem aparecer uma vez por outra então que vão praticar outro
Aikido ou que vão para a aeróbica, porque estão a ser enganados. É |